Ciclosporíase: o que saber sobre esta infeção
Rara em países desenvolvidos, a ciclosporíase provoca ocasionalmente surtos devido a água e alimentos contaminados. A diarreia é um dos principais sintomas.
Durante décadas, a ciclosporíase era uma doença infecciosa pouco conhecida - e rara em países mais desenvolvidos, como os da Europa e da América do Norte. Com o aumento das viagens e, principalmente, o comércio internacional de fruta e legumes, esta infeção começou a surgir em países ocidentais, incluindo Portugal, mas continua a ser uma situação pouco comum.
O que é a ciclosporíase?
Trata-se de uma doença infecciosa gastrointestinal provocada pelo parasita de tipo protozoário - um organismo unicelular - Cyclospora cayetanensis. Este parasita microscópico ataca o sistema digestivo, alojando-se principalmente no intestino delgado, provocando sintomas que podem ir de ligeiros a muito severos, principalmente diarreia. Não é normalmente uma infeção potencialmente fatal, mas pode demorar mais de um mês a desaparecer se não for tratada.
O parasita Cyclospora cayetanensis é endémico em países da América Central e do Sul, Ásia, África e no Médio Oriente, principalmente em regiões tropicais e subtropicais, e em zonas de fracos recursos e subdesenvolvidas. Nos países onde a doença é mais frequente, é possível que as pessoas infetadas não manifestem sintomas, podendo, no entanto, continuar a contagiar indiretamente outras pessoas.
Sabia que...
Existem vários tipos de parasitas Cyclospora. O cayetanensis - que deve o seu nome a uma universidade do Peru, onde foi estudado e identificado nos anos 90 - existe apenas em humanos.
Como se transmite a ciclosporíase?
O parasita Cyclospora cayetanensis não passa diretamente de pessoa para pessoa, através de contacto físico. Uma pessoa infetada liberta oocistos do Cyclospora - o equivalente aos ovos do parasita - através das fezes. Após 12 horas, ocorre a esporulação, tornando-se o parasita infeccioso e podendo infetar outras pessoas através de água ou frutos ou vegetais contaminados. As formas mais comuns de transmissão são:
- Água: Beber água contaminada com oocistos do Cyclospora ou ingeri-la acidentalmente durante o banho, em piscinas ou em lagos. O parasita sobrevive em água da torneira e durante bastante tempo mesmo em água de piscinas tratada com cloro;
- Alimentos: Pode surgir em fruta e vegetais após rega, aplicação de fertilizante ou lavagem com água contaminada. Framboesas, manjericão, ervilhas, ervilhas-tortas, salsa, coentros e saladas embaladas são alguns alimentos onde o Cyclospora cayetanensis pode estar presente, mas pode ocorrer em vários outros alimentos frescos. Enlatados ou produtos congelados não apresentam normalmente o parasita.
Sabia que...
A infeção por Cyclospora é mais comum entre o final da primavera e o final do verão, de maio a setembro, devido à combinação de temperaturas mais elevadas.
Quais são os sintomas de ciclosporíase?
Os sintomas da infeção por Cyclospora surgem na maioria dos casos ao fim de uma semana, mas o período de incubação pode ir de 24 horas a duas semanas, dependendo sobretudo da quantidade de oocistos ingeridos. A diarreia aquosa, bastante frequente, líquida e por vezes incontrolável, é o principal sintoma, mas a ciclosporíase também se pode manifestar por:
- Perda de apetite;
- Barriga inchada;
- Flatulência e eructação (arrotar);
- Fadiga extrema;
- Febre, normalmente ligeira;
- Dores abdominais;
- Náuseas e vómitos;
- Perda de peso;
- Dores musculares.
Se não for tratada, a ciclosporíase demora tempo a desaparecer, e os sintomas podem desaparecer e recorrer novamente.
Complicações da ciclosporíase e grupos de risco
Sendo a diarreia o principal sintoma, a ciclosporíase pode levar a uma elevada desidratação e desequilíbrio eletrolítico. A diarreia pode ser debilitante para o doente e os restantes sintomas, bem como as complicações, aumentam o risco para determinadas pessoas, podendo levar à morte em casos graves.
Quem tem maior risco de complicações?
Os principais grupos de risco são:
- Crianças;
- Idosos;
- Grávidas;
- Pessoas com VIH;
- Doentes com o sistema imunitário comprometido em geral.
Como se faz o diagnóstico de ciclosporíase?
O diagnóstico de ciclosporíase pode ser difícil. Segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, isto acontece mesmo em pessoas com sintomas, porque nem sempre é fácil encontrar os parasitas ou os oocistos e os testes laboratoriais não são os habituais, devendo por isso ser pedidos especificamente. Quando a diarreia e outros sintomas apontam para esta doença, é necessária uma descrição de viagens anteriores realizadas, água ou alimentos consumidos e outras atividades que possam levar a ponderar risco de uma infeção por Cyclospora cayetanensis.
Quanto aos exames laboratoriais, é feita a análise de amostras de fezes, para detetar a presença de oocistos em amostras de fezes frescas. Pode ser necessário apresentar amostras de vários dias, uma vez que uma pessoa infetada tanto pode ter muitos desses ovos nos intestinos para expelir, como não ter nenhum.
Qual é o tratamento para a ciclosporíase?
A ciclosporíase tem uma evolução favorável em pessoas saudáveis, podendo ser debelada ao fim de uma a duas semanas com tratamento.
Medicamentos indicados para combater a infeção
A infeção é combatida com trimetoprim/sulfametoxazol, uma combinação de antibióticos eficaz na maioria das pessoas. Em caso de alergia a esse fármaco, habitualmente é utilizada a ciprofloxacina (medicamento menos eficaz, mas seguro).
Cuidados de hidratação
A hidratação é fundamental, podendo ser feita com água, bebidas isotónicas e, em caso de necessidade, soro intravenoso em ambiente hospitalar. Paralelamente, podem ser tomados medicamentos para alívio da diarreia, outra forma de impedir a desidratação.
Sabia que...
Após a recuperação, é possível haver episódios isolados de diarreia durante um mês, mas muito mais suportáveis do que a diarreia persistente típica da ciclosporíase sem tratamento.
Como prevenir a ciclosporíase?
A maioria dos casos de ciclosporíase ocorre durante ou após viagens a países menos desenvolvidos, pelo que os cuidados devem ser redobrados nesses locais. Contudo, um surto da infeção pode surgir facilmente num país onde o Cyclospora cayetanensis não é endémico, devido a alimentos contaminados, mas também devido a uma pessoa que regressou infetada após uma viagem.
A prevenção da ciclosporíase é fundamental em viagens para outros países, mas não deve ser limitada a isso, principalmente quando se consomem frutas e vegetais crus. Deste modo, alguns cuidados gerais de higiene e dos alimentos a adotar incluem:
- Lavar bem fruta e legumes - incluindo saladas embaladas -, particularmente importados de outros países;
- Descartar as folhas exteriores de vegetais e não comer fruta com casca;
- Cozinhar bem os alimentos;
- Lavar bem as mãos antes e depois de usar a casa de banho;
- Lavar e desinfetar locais de preparação de comida;
- Evitar nadar em piscinas ou partilhar espaços aquáticos em caso de diarreia;
- Não beber água não tratada, preferir água engarrafada durante viagens.
A ciclosporíase não é uma doença particularmente grave e raramente ocorre em Portugal. No entanto, se tiver uma diarreia fora do comum, cuja causa não consegue identificar - ou fez uma viagem recentemente -, consulte um infeciologista para despistar esta e outras doenças e iniciar o tratamento adequado.
ASAE - Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, agosto de 2026
CDC - U.S. Centers for Disease Control and Prevention, agosto de 2026
Cleveland Clinic, agosto de 2026
FDA - U.S. Food and Drug Administration, agosto de 2026
INSST - Instituto Nacional de Seguridad y Salud en el Trabajo, agosto de 2026
Michigan Department of Health & Human Services, agosto de 2026
NHS, agosto de 2026