Pós-enfarte: consequências e cuidados a ter

Coração
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Recuperar de um enfarte pode demorar meses, envolve exercício, cuidados com a alimentação e medicação. Um novo episódio é possível, mas uma vida normal também.

O enfarte, a par do acidente vascular cerebral (AVC), está entre as emergências médicas mais graves e entre as principais causas de morte a nível mundial. Também conhecido como ataque cardíaco, o enfarte resulta da interrupção do fluxo de sangue para o coração, pelo entupimento de uma ou mais artérias do coração, que provoca danos no músculo cardíaco pela falta de irrigação.
Por vezes silencioso, com sintomas como cansaço ou um ligeiro desconforto — em vez da também característica dor intensa no peito —, o enfarte é motivo de dúvidas e grandes receios. É uma situação médica muito grave, com uma recuperação frequentemente longa e cuidados a longo prazo, mas é possível voltar a ter uma vida normal.

 

Sabia que…

O número anual de episódios de enfarte agudo do miocárdio ultrapassa os 10 mil em Portugal desde 2017, embora nos últimos 7 anos, se tenha assistido a uma redução do número absoluto, com cerca de menos 2.000 casos (-12%). E apesar dos cuidados prestados, em 2023, ainda morreram mais de 700 pessoas durante o internamento por ataque cardíaco em Portugal. 

 

Como são os primeiros dias após um enfarte?

Um enfarte do miocárdio requer hospitalização urgente e um tratamento para desobstruir as artérias responsáveis pelo bloqueio. Pode envolver medicamentos vasodilatadores e anticoagulantes; assim como uma angioplastia, uma intervenção minimamente invasiva através de um cateter; ou uma cirurgia mais abrangente que pode incluir um bypass para contornar a obstrução da artéria.
O tempo de hospitalização pode variar entre poucos dias a algumas semanas, dependendo de vários fatores, que incluem:

  • A severidade do ataque cardíaco;
  • Quão rápido foi iniciado o tratamento;
  • O tipo de tratamento (angioplastia ou cirurgia convencional);
  • O estado de saúde em geral e outras doenças.

É ainda no hospital que, além do plano de tratamentos e de acompanhamento médico, assim como das recomendações para continuar a recuperação, o doente que passou por um enfarte a identificar sinais de angina de peito e como agir.

 

Sequelas de um enfarte

É possível ter uma recuperação completa de um enfarte do miocárdio e levar uma vida normal. No entanto, caso haja demora no diagnóstico e/ou no tratamento, pode haver lesão do miocárdio que leva o coração a ter menos capacidade de bombear o sangue. A cicatrização também pode ter esse efeito no coração. Assim, uma das consequências é a insuficiência cardíaca, que provoca limitações como:

  • Falta de ar;
  • Cansaço e incapacidade de realizar esforços;
  • Dor no peito;
  • Necessidade de reinternamento;
  • Arritmias e morte súbita.

 

É normal ter cansaço após um enfarte?

O cansaço, a fadiga e menor energia são sintomas comuns durante a recuperação após o enfarte. No entanto, essa incapacidade deve melhorar gradualmente e desaparecer por completo — a não ser que seja antecipada pela equipa médica. Quando o cansaço após um enfarte permanece por muito tempo, é normalmente sinal de possível insuficiência cardíaca.
Por outro lado, o tratamento prolongado após um enfarte — com medicação que pode ser necessária para o resto da vida — pode ser ajustado ao longo do tempo, quer para tratamento de sintomas, quer para prevenção das condições que levaram anteriormente ao enfarte. Qualquer alteração no dia a dia deve ser relatada na consulta de acompanhamento pós-enfarte.
 

Cuidados a ter depois de um enfarte

A recuperação de um ataque cardíaco e posterior manutenção da saúde cardiovascular passa muito por prevenir um outro enfarte. Isso depende de um conhecimento do plano de ação, da medicação a tomar e da manutenção das medidas que envolvem tanto programas de reabilitação cardíaca como alterações do estilo de vida ou cuidados com a atividade física.

 

Reabilitação cardíaca

Tratam-se de medidas nos primeiros tempos após um enfarte, normalmente com apoio médico ou hospitalar, para ajudar o coração a recuperar a sua capacidade e para gerir o esforço do corpo de forma a que não tenha impacto na saúde cardiovascular. A reabilitação cardíaca pode ser feita individualmente ou em grupo e normalmente envolve:

  • Gestão da medicação: há medicamentos que são para toda a vida e não pode suspender;
  • Controlo de fatores cardiovasculares como pressão arterial e colesterol;
  • Reconhecimento dos sinais de um episódio cardíaco;
  • Apoio na gestão do stress, ansiedade ou depressão;
  • Exercício físico adequado à situação ou tempo de recuperação;
  • Informação sobre riscos e como os evitar.

 

Atividade física

O regresso a atividades ou ações de rotina é importante, devendo ser gradual e ajustado às capacidades de cada pessoa. Há coisas que é fundamental começar logo, outras que devem ser regradas. De um modo geral, algumas medidas que podem ser aplicadas são:

  • Vestir-se sozinho e tratar da higiene pessoal;
  • Ir começando a fazer tarefas domésticas;
  • Distribuir as atividades físicas ao longo do dia;
  • Subir escadas, mas evitar fazê-lo demasiadas vezes;
  • Empurrar, puxar ou levantar pesos apenas quando o médico disser que pode fazê-lo;
  • Ter atenção no regresso ao trabalho;
  • Seguir atentamente as restrições do médico.

Um ponto importante no que diz respeito à atividade física é a sexualidade. O regresso à vida sexual pode ter ajustes que privilegiam o descanso e a capacidade física, mas acima de tudo é um tema que deve ser abordado com o parceiro, devem estar ambos em sintonia. A disfunção sexual após um enfarte é uma possibilidade, mas mais frequente é a frustração ou desânimo com alguma redução da capacidade. É um tema que também deve ser abordado com o cardiologista caso haja alguma dificuldade acrescida. 
 

Exercício físico

O treino e exercício físico devem começar com a reabilitação cardíaca e continuar depois a nível individual quando esta é terminada. É importante:

  • Deixar de fumar e alterar a alimentação;
  • Dedicação ao plano de treinos proposto;
  • Manter a rotina diária após o fim do programa;
  • Procurar não desistir ou reduzir o tempo e a intensidade. 

 

Alimentação

É uma parte crucial da recuperação, principalmente porque o enfarte se deve muitas vezes ao estilo de vida e a uma alimentação pouco cuidada. A Dieta Mediterrânica é normalmente um modelo de alimentação recomendado. Algumas estratégias a adotar são:
Planear refeições com muitos vegetais, fruta, leguminosas e cereais integrais;
Privilegiar as gorduras saudáveis, de alimentos como abacate, ou frutos secos;
Comer peixe, frango, ovos e leite e derivados com pouca gordura;
Limitar muito o consumo de carnes vermelhas, fritos e doces;
Reduzir o consumo de sal;
Evitar bebidas açucaradas;
Evitar alimentos processados.

A atenção à alimentação deve ser acompanhada de um controlo do colesterol e da pressão arterial, bem como da obesidade e diabetes quando estas doenças estão presentes. Mas o cuidado com os alimentos e as refeições não tem de ser uma prisão. Se as bebidas alcoólicas ou açucaradas devem ser evitadas, o café, por outro lado, não faz mal, desde que seja tomado com moderação.

 

Gestão das emoções

Dúvidas, raiva, medo, ansiedade e sentimentos depressivos são, por vezes, uma realidade quando se passa por um enfarte, mas é importante ter tanta atenção à saúde mental como à física. Para isso, é importante também o envolvimento da família e dos amigos, que também ajudam à recuperação. Algumas estratégias passam por:

  • Levantar-se e vestir-se todos os dias, evitar ficar muito tempo na cama;
  • Fazer uma caminhada todos os dias — tendo em atenção as capacidades físicas;
  • Voltar aos hobbies e atividades sociais;
  • Falar e partilhar os sentimentos com amigos, familiares ou terapeutas;
  • Tentar dormir bem, evitar sestas durante o dia;
  • Participar em programas ou grupos de apoio, com pessoas na mesma situação;
  • Não ter medo de fazer perguntas, esclarecer dúvidas com a equipa médica.

O conhecimento da doença e da recuperação é fundamental, seja para ajudar a perceber o que resulta ou o que evitar, tendo em conta a experiência médica e de outras pessoas, seja para perceber o que é diferente com a própria pessoa, que resulta melhor consigo.

 

Expectativa de vida após um enfarte

Tal como o tempo de recuperação e as sequelas, a expectativa de vida após um enfarte varia de acordo com a severidade do ataque cardíaco e o tempo de resposta para tratamento. A idade tem um peso relevante nesta situação, sendo mais fácil uma pessoa ainda jovem recuperar. Ter um segundo enfarte é um risco sempre presente, associado também à idade, e cerca de uma em cada cinco pessoas com 45 anos ou mais acaba por ter novo ataque cardíaco nos cinco anos seguintes.
O enfarte não é uma sentença ou uma prisão. É uma situação grave, que pode trazer sequelas e obrigar a cuidados rigorosos, mas também pode ocorrer uma recuperação total ou quase, que permite ter uma vida semelhante à que tinha antes. Se passou por um enfarte e tem dúvidas ou sentiu alguma coisa diferente, fale com um médico especialista em cardiologia.
 

Publicado a 07/07/2026