Como tratar a obesidade?

Doenças crónicas
Prevenção e bem-estar
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O tratamento da obesidade é multifacetado, podendo incluir alterações de estilo de vida, medicação e até técnicas cirúrgicas. Conheça as diferentes abordagens.

A obesidade é uma doença crónica caracterizada pela acumulação excessiva de gordura corporal associada a várias causas - os hábitos de vida sedentários e uma má alimentação são duas das principais. Reduzida atividade física, alimentos e refeições de baixa qualidade nutricional e o stress contribuem para que a obesidade se torne um problema de saúde pública, uma pandemia no mundo ocidental, afetando de modo crescente crianças e jovens.

Em Portugal, mais de um quarto da população adulta tem excesso de peso e mais de dois milhões de pessoas vivem com obesidade, segundo a Direção-Geral da Saúde. Dados recentes do Instituto Nacional de Estatística mostram ainda que, em Portugal, em 2022, 15,9 % das pessoas com mais de 18 anos sofriam de obesidade, verificando-se a percentagem mais alta entre os 45 e os 64 anos (19,1 %) e os 65 e 74 anos (21,3 %). Por sexo, apesar de haver mais homens obesos (16,1 %), com um pico entre os 45 e os 64 anos (20,9%), a percentagem de mulheres era superior na faixa etária seguinte (23,5%).

 

Na base do tratamento da obesidade está a alteração de estilo de vida, com a implementação de atividade física regular e escolhas alimentares saudáveis e equilibradas e, quando indicado pelo médico, medicação e cirurgia bariátrica, sempre adaptadas a cada doente de forma a permitir uma perda de peso controlada e a longo prazo. Um peso adequado permite melhorar o estado de saúde geral e reduz o risco de complicações associadas à obesidade, como o risco cardiovascular, a esteatose hepática (fígado gordo), complicações respiratórias como a apneia do sono e doença osteoarticular.

 

Entende-se atualmente a obesidade como uma doença crónica e recidivante, em que componentes genéticas e alterações metabólicas desempenham um papel decisivo, associadas a escolhas individuais e de estilo de vida que condicionam um balanço energético positivo entre a energia ingerida e a energia gasta criando um aumento do peso corporal.

 

Riscos da obesidade

O excesso de peso é prejudicial à saúde mesmo nas situações de pré-obesidade. Segundo a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEMD), a obesidade aumenta o risco de doenças como: ​​hipertensão arterial e patologia cardiovascular, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, diabetes tipo 2, doenças gastrointestinais e hepáticas, artroses, depressão, cancro (mama, endométrio, próstata) e infertilidade (feminina e masculina). O risco é avaliado em função do índice de massa corporal (IMC):

Classes de obesidade IMC Risco cardiovascular e metabólico
Classe I 30 a 34,9 Kg/m2 Elevado
Classe II 35 a 39,9 Kg/m2 Muito elevado
Classe III >40 Kg/m2 Extremamente elevado
     

Fatores como a distribuição da gordura, que pode estar concentrada no perímetro abdominal, condicionam o nível de risco. No caso da gordura abdominal, o risco é elevado quando a circunferência da cintura ultrapassa os 80 cm nas mulheres e 94 cm nos homens; e torna-se muito elevado quando essa medida passa os 88 cm nas mulheres e 102 cm nos homens.

 

Alteração de hábitos de vida é o primeiro passo

A mudança de hábitos alimentares, de atividade física está na base do tratamento da obesidade e do excesso de peso. Para tornar todo o processo mais fácil, siga sempre as recomendações do seu médico assistente.

 

Alimentação

Adotar uma alimentação mais baixa em calorias e mais saudável é muitas vezes o primeiro passo no tratamento da obesidade e do excesso de peso. As regras a seguir devem ser sempre as implementadas pela equipa de cuidados médicos do doente.

Inicialmente, a perda de peso pode ocorrer mais rapidamente, contudo, a forma mais segura de fazê-lo e que permite manter os resultados a longo prazo consiste numa perda de peso estável e gradual. Deste modo, as pessoas que estão a tentar perder peso devem evitar dietas muito radicais, pois é pouco provável que consigam manter a perda de peso de forma permanente.

Não existe uma fórmula universal para a perda de peso. As alterações a nível de alimentação devem ser sempre individualizadas e podem incluir:

  • Reduzir o número de calorias ingeridas;
  • Fazer escolhas mais saciantes e menos calóricas, como, por exemplo, trocar as sobremesas e doces pela fruta e vegetais;
  • Adotar uma dieta mais saudável, rica em vegetais, fruta, e cereais integrais e que inclua leguminosas, carnes magras e peixe;
  • Limitar a ingestão de sal e açúcar adicionado;
  • Consumir pequenas quantidades de gordura saudável, como azeite;
  • Reduzir o consumo de alguns grupos de alimentos, como alimentos ricos em hidratos de carbono ou em gordura e alimentos processados.

 

Atenção!

Após um período de excessos alimentares - algo que é normal que possa acontecer -, por exemplo, numa festa, volte ao seu regime alimentar assim que possível.

 

Exercício físico

A prática de exercício físico está na base do tratamento. As pessoas que sofrem de obesidade ou excesso de peso devem fazer atividade física regular a par da adoção de uma alimentação saudável.

Pessoas obesas devem praticar pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana não só para manter a perda de peso alcançada como para prevenir o aumento de peso. Porém, este número deve ser adequado a cada pessoa e fase do tratamento.

Acima de tudo, é importante que seja uma pessoa ativa, mesmo quando não está a treinar. Para isso basta que coloque em prática pequenos gestos como estacionar o carro mais longe da porta do supermercado, tratar das tarefas domésticas e até usar um pedómetro, para saber quantos passos dá por dia.

 

Medicamentos: opções disponíveis

Nos casos em que as alterações da alimentação e atividade física não são suficientes, poderão ser prescritos medicamentos no tratamento do excesso de peso e obesidade. Contudo, o doente deve cumprir adicionalmente pelo menos um dos seguintes critérios: ter um IMC de 30 ou mais; ou ter um IMC superior a 27 e uma complicação associada à obesidade, como diabetes, pressão arterial elevada ou apneia do sono. O IMC é calculado dividindo o peso pela altura em m².

O objetivo deste tipo de medicação passa, por exemplo, por reduzir a fome e falta de saciedade, ajudando o doente a seguir uma dieta pouco calórica. Atualmente, uma das abordagens mais inovadoras e eficazes baseia-se nos agonistas dos recetores do GLP-1 (como o liraglutido ou o semaglutido). Estes fármacos, tipicamente injetáveis, mimetizam uma hormona produzida naturalmente pelo intestino que atua no cérebro para regular o apetite e atrasar o esvaziamento do estômago, promovendo uma saciedade precoce e prolongada. Existem também medicamentos que impedem a absorção de parte da gordura dos alimentos pelo corpo, sendo esta eliminada através das fezes.

Durante a toma da medicação, os doentes devem ser vigiados pelo médico. É também importante ter em consideração que estes medicamentos não são adequados a todos os casos, têm riscos e que após a sua suspensão o doente pode recuperar algum do peso perdido ou até a sua totalidade.

 

Técnicas cirúrgicas menos invasivas

No tratamento da obesidade, existem alguns procedimentos pouco invasivos, realizados sob anestesia geral, não envolvendo quaisquer incisões na pele. Estes são realizados através de endoscopia (como por exemplo a gastroplastia endoscópica): é inserido um tubo flexível e instrumentos através da boca até ao estômago.

As técnicas utilizadas são várias, como dar alguns pontos no estômago de forma a reduzir o seu tamanho e a quantidade de comida que conseguimos ingerir ou inserir um pequeno balão no estômago que limita o espaço disponível no interior deste órgão.

Habitualmente, estes procedimentos são utilizados em pessoas com um IMC igual ou superior a 30, quando a dieta e a prática de exercício físico por si só não se mostraram eficazes.

 

Em que casos recorrer à cirurgia

Nem todas as pessoas com obesidade são candidatas à cirurgia bariátrica. Os critérios para fazer este tipo de intervenção são:

  • Ter um IMC superior a 40;
  • Ter um IMC superior a 35 e doenças associadas à obesidade, como diabetes, hipertensão, apneia de sono, problemas do foro ortopédico ou do sistema vascular periférico, entre outros;
  • Ter um IMC entre 30 e 35 e diabetes do tipo 2, quando não se consegue fazer um controlo metabólico através de outras medidas ou tratamento.

 

Além disso, esta é uma opção quando outras formas de tratamento não funcionaram. No entanto, o doente deve ainda comprometer-se a fazer mudanças a nível de estilo de vida para que a cirurgia tenha sucesso.

 

Sabia que…

A cirurgia metabólica permite realizar o tratamento cirúrgico da obesidade e diabetes através do mesmo procedimento.

 

Cirurgia bariátrica

Este tipo de cirurgia limita a quantidade de comida que conseguimos ingerir ou reduz a absorção dos alimentos e calorias. Pode também ter ambos os efeitos. A cirurgia bariátrica pode ajudar pessoas com obesidade a perder mais de 50 % do seu peso corporal em excesso. Esta não é, no entanto, uma garantia de que o doente vai perder todo o peso a mais ou que vai conseguir manter esses resultados a longo prazo. Para isso, as mudanças de hábitos de vida são fundamentais.

Alguns tipos de cirurgia bariátrica são:

  • Bypass gástrico - nesta técnica é feita uma redução da parte superior do estômago, produzindo um novo estômago menor (pouch) e um desvio do intestino em forma de um Y. Este procedimento visa a redução do volume do estômago, diminui a absorção de calorias e promove o aumento de hormonas que dão saciedade, diminuindo assim a sensação de fome;
  • Derivação biliopancreática por switch duodenal - técnica mista que combina a redução do estômago com um desvio intestinal extenso. Ao limitar a absorção de gorduras e calorias, é eficaz em casos de obesidade severa, exigindo vigilância nutricional rigorosa e vitalícia;
  • Sleeve gástrico (gastrectomia vertical) - neste procedimento, uma grande parte do estômago é removida. Apenas um tubo ao longo da pequena curva do estômago permanece como uma ligação entre o esófago e o intestino, com as dimensões de uma banana. A ingestão de calorias é reduzida e a sensação de saciedade é mais rápida, tanto pela redução da capacidade do estômago, como pelo facto de se reduzir a produção de hormonas como a grelina.

 

O papel da saúde mental

Para um sucesso sustentado, o tratamento deve incluir o acompanhamento psicológico e o foco na saúde mental. Esta intervenção é essencial para gerir comportamentos alimentares emocionais, como o comer compulsivo, e para manter a motivação perante as mudanças de rotina. Além de facilitar a adesão às novas escolhas alimentares e à atividade física, o apoio especializado ajuda a prevenir recidivas, garantindo resultados a longo prazo.

 

Qual o médico especialista que deve procurar para tratar a obesidade?

O tratamento da obesidade deve ter uma abordagem multidisciplinar: procure aconselhamento junto do seu médico de família, que o pode encaminhar para o endocrinologista, nutricionista, psiquiatra ou psicólogo, ou eventualmente para o cirurgião geral.

Fontes:

American Society for Metabolic and Bariatric Surgery

Direção-Geral da Saúde

European Association for the Study of Obesity

European Medicines Agency

Food and Drug Administration

INE

INFARMED

International Federation for the Surgery of Obesity

Mayo Clinic

National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases

NHS

Organização Mundial da Saúde

Ordem dos Psicólogos Portugueses

Serviço Nacional de Saúde

Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo

Sociedade Portuguesa de Cirurgia de Obesidade

Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade

World Obesity Federation

Publicado a 04/03/2026