O que é o hantavírus e como se transmite
Com origem principalmente em roedores, a infeção por hantavírus pode provocar sintomas pulmonares ou renais. Apesar da gravidade, são pouco frequentes os casos.
A infeção por hantavírus é uma situação potencialmente grave, que tem origem na transmissão de vírus essencialmente por parte de roedores, sendo raro o contágio entre humanos. Apesar dos riscos e da possibilidade de doença mais severa - que pode ter sintomas pulmonares ou nos rins -, os surtos na comunidade não são comuns, estando associados a estirpes do vírus e a locais de transmissão muito específicos. As mudanças no clima proporcionam o surgimento de animais infetados e de casos de infeção em locais onde anteriormente não havia registo de doença ou risco de infeção.
O que é o hantavírus?
Não se trata de um único organismo, mas de uma família de agentes infecciosos, os Hantaviridae, em roedores selvagens e morcegos. Os hantavírus já circulam há milhares de anos na natureza, no entanto, o hantavírus apenas foi isolado e identificado em 1978, na Coreia do Sul, estando associado depois a casos em vários países. Nos anos 90, foi encontrado um novo vírus da mesma família nos Estados Unidos, o SNV, após um surto, e noutros países do continente americano como Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai, com destaque para o vírus Andes, que apresenta um risco maior de doença por poder ser transmitido entre pessoas.
Sabia que...
Após os vírus terem sido identificados, foi desenvolvida a possibilidade de terem sido responsáveis por surtos de doença nas principais guerras mundiais. Existem também descrições de doenças na China Antiga, há mais de 2.000 anos, que se assemelham a infeções por hantavírus.
Que doenças causa o hantavírus?
Apesar de existirem dezenas de hantavírus, estes estão associados a dois principais tipos de doença:
- Síndrome pulmonar por hantavírus (SPH) - mais presente na América do Sul e do Norte;
- Febre hemorrágica com síndrome renal - essencialmente na Ásia e também nalguns países europeus.
Em ambos os casos, a doença pode ser ligeira ou até assintomática, mas também evoluir para situações mais graves, tendo uma grande letalidade associada, principalmente a síndrome pulmonar.
Hantavírus: como se transmite?
A infeção por hantavírus surge principalmente por contacto direto com roedores portadores do vírus - como o manuseamento de animais mortos ou vivos -, bem como pelo contacto, por toque com fezes, urina ou saliva ou por inalação de partículas no ar. Mordidelas e arranhões são outros meios de transmissão de hantavírus, ou comer alimentos contaminados. Os animais são os causadores da maioria das infeções por hantavírus, com o tipo de doença a estar associada à região ou estirpe.
A transmissão entre humanos, sobretudo associada ao vírus Andes, na América Latina, constitui motivo de preocupação pela maior possibilidade de circulação da doença.
Vírus Andes: que riscos representa
A estirpe Andes do hantavírus é inicialmente transmitida por animais, podendo depois a pessoa infetada contagiar outras. Este vírus, que causa a síndrome pulmonar por hantavírus, tem um período de incubação que chega a 42 dias, aumentando o risco de transmissão. Pode entrar no organismo através de secreções respiratórias, saliva, sangue e outros fluidos corporais, sendo qualquer contacto próximo - dois metros ou menos, num total acumulado de 15 minutos - um potencial motivo de infeção.
Quais são os sintomas de hantavírus
Dependendo do conjunto de vírus, associado ao local da infeção, as duas principais doenças causadas pelo hantavírus - pulmonar e renal - provocam sintomas distintos, com maior gravidade para a síndrome pulmonar, que começa por ser semelhante a uma gripe.
Síndrome pulmonar por hantavírus (SPH)
Os sintomas começam entre uma a oito semanas após o contacto com o vírus, o que torna difícil a suspeita de doença grave por parte da pessoa infetada. Os sintomas manifestam-se por:
- Febre;
- Fadiga;
- Dores musculares;
- Dores de cabeça;
- Tonturas;
- Calafrios;
- Dor abdominal;
- Náuseas, vómitos e diarreia.
Entre quatro a dez dias desde o início da doença podem surgir sintomas mais graves, como dificuldade respiratória, tosse e aperto no peito, sinal de acumulação de fluido nos pulmões. Mais de um terço das pessoas que desenvolvem problemas respiratórios podem morrer.
Atenção:
Em caso de exposição ou risco de exposição com hantavírus Andes, os fatores a ter em atenção são febre (ativa ou anterior) e qualquer um dos outros sintomas referidos, iniciais ou mais graves.
Febre hemorrágica com síndrome renal
Os sintomas desta doença provocada por variantes asiáticas de hantavírus começam cerca de uma a duas semanas após o contágio. Apesar de esta febre hemorrágica ser potencialmente fatal, a probabilidade de desenvolver sintomas mais graves é menor. Por outro lado, a recuperação pode demorar meses. Os sintomas principais são:
- Dores de cabeça intensas;
- Dor abdominal ou nas costas;
- Febre, arrepios;
- Visão distorcida;
- Rubor na cara;
- Inflamação ou vermelhidão nos olhos.
Os sintomas tardios são mais graves, incluindo hipotensão, choque, hemorragias internas (perdas vasculares) e falência renal aguda. A presença destes sintomas varia bastante de acordo com as estirpes do vírus em causa. Na Europa, existe uma forma mais leve da doença renal, com sintomas ligeiros, chamada nefropatia epidémica.
Procedimento em caso de sintomas
O risco de infeção por hantavírus é uma situação de urgência médica, não devendo ser encarados de ânimo leve quaisquer sintomas, ainda que ligeiros, quando existe risco de contágio devido a uma viagem para regiões onde o vírus está presente, particularmente o hantavírus Andes. O mesmo se deve fazer após o contacto com roedores ou pessoas infetadas, por proximidade ou permanência em espaços fechados, mesmo que não existam sintomas, devendo a situação ser reportada. O procedimento no caso de risco ou suspeita de hantavírus é:
- Ficar em isolamento num espaço fechado, longe de outras pessoas;
- Colocar uma máscara cirúrgica para proteção de outros;
- Ligar para o SNS 24 ou para o número de emergência 112.
O encaminhamento é feito para os hospitais definidos para estas situações e, além da pessoa sintomática ou com exposição ao vírus Andes, é feito um rastreio de todos os contactos próximos, com orientações para terem um termómetro para medição de temperatura, usarem máscara cirúrgica no dia a dia e contactarem o SNS 24 ou 112 após o aparecimento de sintomas.
Diagnóstico da infeção por hantavírus
Em caso de suspeita de hantavírus da estirpe Andes, há um elevado cuidado com a possibilidade de contágio, pelo que mantém-se o isolamento e uso de máscara. Todos os profissionais de saúde que lidem com o doente usam equipamento de proteção individual (EPI), luvas e máscara - que são posteriormente destruídos, e todas as colheitas de análises são analisadas e acondicionadas com especial cuidado.
Quanto ao diagnóstico de hantavirose em geral, o médico infecciologista questiona sobre o contacto com roedores e outros animais selvagens, bem como sobre deslocações a outros países e visita a locais remotos em contacto com a natureza. O diagnóstico de hantavírus é difícil, na medida em que as análises (PCR e imunohistoquímica) - que procuram anticorpos Ig M por método Elisa - não são eficazes até 72 horas após a exposição e o período de incubação é bastante longo. Paralelamente, são procurados sinais como níveis elevados de glóbulos brancos (leucocitose), plaquetas baixas (trombocitopenia) e níveis de oxigénio abaixo do normal.
Podem ainda ser feitos outros exames e análises para confirmar o tipo de doença - renal ou pulmonar - e potenciais lesões, como função renal, eletrólitos, raio-X ao tórax. É possível também que seja pedido ecocardiograma para excluir doenças cardíacas que possam ter sintomas semelhantes.
Tratamento para hantavírus
Não existe cura ou tratamento para as doenças provocadas pelo hantavírus, sendo tratados apenas os sintomas, consoante se trata de síndrome pulmonar ou síndrome renal. No entanto, esse acompanhamento deve ser feito em ambiente hospitalar, com todas as condições para tratar os sintomas mais graves, pelo que é fundamental consultar um médico assim que começam os sintomas. A sobrevivência e recuperação dependem de um tratamento atempado.
O tratamento hospitalar para a infeção por hantavírus pode incluir:
- Oxigenoterapia, para fornecer mais oxigénio no organismo;
- Vasopressores, medicamentos que aumentam a pressão sanguínea;
- Soro intravenoso;
- Ventilação mecânica para manter a ventilação eficaz;
- Medicamentos antivirais, para impedir a propagação do vírus;
- Oxigenação do sangue por membrana extracorpórea (ECMO);
- Diálise para filtrar o sangue, caso os rins estejam afetados.
Por outro lado, tratando-se de uma doença para a qual não há tratamento específico, e que tem riscos elevados para a saúde pública - podendo ser transmitida entre humanos no caso da estirpe sul-americana Andes -, todos os casos confirmados ou suspeitos devem ser tratados com extremo cuidado em ambiente hospitalar.
Não existe uma vacina para o hantavírus na Europa ou no Ocidente em geral, havendo apenas uma vacina na Ásia, na China e na Coreia do Sul, para prevenir algumas estirpes que provocam a febre hemorrágica com síndrome renal, que não é usada e não está aprovada na Europa ou nas Américas.
Prevenção das infeções por hantavírus
Em Portugal, o risco de transmissão do hantavírus é extremamente reduzido, sendo baixo mesmo nos países onde a presença é endémica. Não existem medidas preventivas a aplicar especificamente em Portugal, no entanto, com uma cada vez maior circulação de pessoas, há cuidados a ter em viagens, nomeadamente para a América Latina, devido ao risco de síndrome pulmonar.
A Direção-Geral da Saúde classifica o hantavírus Andes com um nível de risco muito baixo em Portugal, mas recomenda cuidados no caso de deslocações para Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, que incluem:
- Evitar o contacto com roedores ou com a saliva, urina e fezes desses animais;
- Limpar espaços potencialmente contaminados por roedores;
- Evitar a acumulação de lixo junto de casa ou de espaços usados;
- Usar armadilhas para roedores e eliminar ninhos.
Outras medidas que contribuem para a prevenção de infeções por hantavírus em países onde o vírus pode estar presente são:
- Armazenar bem a comida;
- Selar buracos em paredes e colocar redes em janelas;
- Usar máscara em locais de risco ou durante limpezas;
- Evitar varrer ou aspirar a seco, que pode levantar partículas;
- Lavar frequentemente as mãos e o rosto;
- Ter especial atenção em acampamentos ou caminhadas na natureza;
- Lavar bem a roupa e não levar lixo para casa após passeios;
- Ter atenção a sintomas após viagens a locais onde o vírus existe.
A hipótese de infeção por hantavírus é bastante reduzida, no entanto, sendo potencialmente grave a doença, difícil o diagnóstico e não havendo tratamento específico para os vírus, todos os cuidados são poucos. É fundamental contactar o SNS 24 ou 112 sempre que haja sintomas ou suspeita de exposição ao hantavírus.
Em atualização
Atualizado a 15/05/2026