Ablação: tratamento de referência para as arritmias cardíacas

Coração
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As arritmias são problemas cardíacos frequentes, especialmente a fibrilhação auricular. Os riscos podem ser elevados mas existe um tratamento eficaz: a ablação.

A idade, a obesidade, o sedentarismo ou o consumo excessivo de álcool aumentam a probabilidade de desenvolver fibrilhação auricular - uma arritmia que afeta a qualidade de vida e pode ter consequências graves, como o AVC. A ablação é hoje uma solução segura e eficaz, com resultados muito superiores à medicação na maioria dos casos. Perante sintomas sugestivos ou diagnóstico de arritmia, a consulta com um arritmologista é decisiva para um tratamento adequado.



Uma manhã como outra qualquer

Esmeralda Rodrigues conduzia tranquilamente quando, sem qualquer aviso prévio, acordou com o carro encostado a um separador. Não havia fadiga, não havia distração - simplesmente um vazio. Um mês depois, sentada no banco do passageiro, repetiu-se o mesmo episódio: mal-estar súbito, suores frios, perda de consciência. Seria síncope vagal, disseram-lhe. Mas Esmeralda, pouco convencida, procurou uma segunda opinião.

O que se seguiu - exames mais dirigidos e, decisivamente, a implantação de um pequeno monitor sob a pele - viria a revelar a origem real dos seus desmaios: dois eventos da mesma arritmia, um acordada, outro durante a madrugada, registados por esse dispositivo, o qual permitiu estabelecer a correlação entre os seus sintomas e a causa subjacente.

A história de Esmeralda não é exceção. É, antes, um espelho da dificuldade em diagnosticar as arritmias - e do que pode mudar quando se chega ao tratamento certo.

 

O que é uma arritmia cardíaca?

O coração tem o seu próprio sistema elétrico: um sinal gerado naturalmente percorre as câmaras cardíacas numa sequência precisa, coordenando cada batimento. Uma arritmia acontece quando esse sinal é perturbado - seja porque é gerado no sítio errado, ou porque se propaga por circuitos elétricos alterados.

O resultado pode sentir-se de formas distintas. O sintoma mais comum são as palpitações - a sensação de que o coração falhou um batimento, acelerou subitamente, ou bate de forma irregular. Mas uma arritmia pode igualmente manifestar-se através de cansaço fora do comum, tonturas, ou mesmo desmaios, como aconteceu com Esmeralda. Nalguns casos - e isto é particularmente relevante -, o doente não sente absolutamente nada, sendo a arritmia detetada, de forma incidental, num exame de rotina.

Esta diversidade de apresentações é uma das razões pelas quais o diagnóstico pode demorar a ser estabelecido. A natureza intermitente das arritmias contribui para essa dificuldade: os episódios podem ocorrer uma ou duas vezes por ano, em momentos imprevisíveis, e cessar antes de qualquer exame conseguir registá-los. Não é raro que sintomas como os de Esmeralda sejam inicialmente atribuídos a stress, cansaço ou ansiedade - atrasando o encaminhamento para um especialista.

 

Sabia que...

Estudos no mundo ocidental estimam que 30 a 50 % dos doentes com indicação para consulta de Arritmologia nunca chegam a tê-la.

 

Fibrilhação auricular: a arritmia mais comum

Entre as várias formas de arritmia, a fibrilhação auricular - habitualmente referida como FA - é a arritmia sustentada mais prevalente no mundo, e uma das que apresenta consequências potencialmente mais graves quando não tratada.

Na fibrilhação auricular, a atividade elétrica das câmaras superiores do coração (as aurículas) deixa de ser coordenada e torna-se caótica. Em vez de contrair de forma organizada, o coração bate de modo irregular e, frequentemente, mais rápido do que habitualmente sucede. O doente pode sentir palpitações, cansaço marcado ou falta de fôlego - ou, como referido, pode não notar nada de anormal (FA silenciosa).

O que torna a fibrilhação auricular particularmente preocupante é a sua progressão. Sem intervenção eficaz, os episódios tornam-se mais frequentes e prolongados ao longo do tempo, evoluindo de uma fase em que surgem e terminam espontaneamente para formas mais persistentes e difíceis de tratar. Com isso, acumulam-se os riscos: a irregularidade do batimento favorece a formação de pequenos coágulos nas aurículas, que podem migrar, por exemplo, para o cérebro e causar um AVC. A longo prazo, um coração cronicamente sobrecarregado pode também desenvolver insuficiência cardíaca.

A fibrilhação auricular é mais frequente a partir dos 50-60 anos, mas não é exclusiva dessa faixa etária. Os fatores de risco cardiovascular - hipertensão arterial, diabetes, excesso de peso, síndrome de apneia do sono - contribuem para o seu desenvolvimento e importa controlá-los. Atletas de alta competição (por exemplo, maratonistas, ciclistas, triatletas), pessoas com determinadas doenças do músculo cardíaco e indivíduos com predisposição genética podem desenvolvê-la mais cedo. Importa também referir que, embora menos frequente, a fibrilhação auricular pode surgir em doentes sem qualquer outra patologia associada.

 

Porque é que a ablação é preferida à medicação?

Durante muito tempo, o tratamento da fibrilhação auricular assentou principalmente em medicamentos: uns para controlar a frequência cardíaca, outros para tentar manter ou restaurar o ritmo normal. Estas abordagens continuam a ter o seu papel, mas apresentam limitações importantes - eficácia variável, efeitos secundários que condicionam a adesão ao tratamento, e, fundamentalmente, a incapacidade de travar a progressão da doença.

A ablação por cateter opera de forma diferente: em vez de gerir a arritmia, atua diretamente sobre o mecanismo que a origina. É essa diferença de fundo que explica os resultados clínicos.

 

A evidência científica é inequívoca: a ablação é superior à medicação na grande maioria das situações. Reduz o risco de eventos cardiovasculares, trava a progressão para formas mais graves da doença, diminui as hospitalizações e melhora a qualidade de vida de uma forma que os fármacos não conseguem alcançar à mesma escala.

 

Os números são concretos: em doentes adequadamente selecionados, as taxas de ausência de fibrilhação auricular a dois anos situam-se entre os 70 e os 85 %. Significa que a maioria dos doentes vive sem arritmia - ou com uma carga arrítmica muito reduzida - durante anos após o procedimento. Uma minoria necessitará de uma segunda intervenção, o que faz parte da gestão natural desta doença. O objetivo não é prometer uma cura absoluta, mas sim uma melhoria sustentada e clinicamente significativa.

A ablação não substitui os cuidados de estilo de vida: controlar a tensão arterial, tratar a apneia do sono, manter um peso saudável e fazer exercício regular são medidas que complementam o procedimento e influenciam diretamente os resultados a longo prazo. Como se costuma explicar aos doentes, a ablação é parte do tratamento - a outra parte é adequar e melhorar o estilo de vida.

 

Como se realiza a ablação?

A ablação é um procedimento minimamente invasivo, realizado sob anestesia geral ou, quando indicado, sedação profunda. O acesso ao coração é feito através de uma pequena punção na veia da virilha, guiada por ecografia vascular, sem necessidade de cirurgia aberta. Por essa via, introduzem-se cateteres - tubos muito finos e flexíveis - que são avançados até às zonas do coração onde a arritmia tem origem.

Uma vez posicionados, os cateteres permitem identificar com precisão o local responsável pela arritmia e criar pequenas lesões que interrompem a atividade elétrica anómala. Na fibrilhação auricular, o alvo principal é estabelecer uma barreira, através de uma linha contínua de lesões, entre as veias pulmonares - região de onde parte a maioria dos estímulos que desencadeiam a arritmia - e a aurícula esquerda.

 

Quais as principais tecnologias disponíveis?

Radiofrequência: o cateter aplica calor controlado para criar as lesões necessárias, ponto a ponto. É a técnica com maior experiência acumulada e validação clínica ao longo de mais de duas décadas.

Eletroporação (ablação por campo pulsado): tecnologia mais recente, que utiliza pulsos elétricos de alta intensidade para destruir, seletivamente, as células responsáveis pela arritmia, sem recurso a calor. É uma técnica segura e os procedimentos tendem a ser mais curtos.

A duração média de uma ablação situa-se entre as duas e as três horas, podendo estender-se em casos de maior complexidade. A evolução tecnológica dos últimos anos permitiu encurtar significativamente estes tempos sem comprometer a segurança ou a eficácia.

 

Ablação personalizada: a abordagem CUF

A CUF integra um programa pioneiro de ablação personalizada para a fibrilhação auricular, desenvolvido em conjunto com outros centros de referência, que vai além do procedimento convencional. O ponto de partida é conhecer a anatomia individual de cada doente antes de intervir - mapeando o coração de cada um antes de qualquer ablação.

Através de mapeamento elétrico e anatómico tridimensional de alta resolução, reconstrói-se a anatomia cardíaca com detalhe. Esta reconstrução - visível em tempo real no ecrã ao lado do doente - permite guiar cada procedimento com uma precisão que a abordagem convencional não oferece. Quando associada à aplicação de protocolos específicos para a deteção de focos geradores de fibrilhação auricular, esta estratégia aumenta simultaneamente a segurança e a eficácia da ablação.

A discussão destes mapas com os doentes tem também um valor clínico próprio: ao verem a reconstrução tridimensional do seu coração e das lesões realizadas, compreendem melhor a doença e o tratamento - o que se traduz numa maior adesão e num acompanhamento mais informado.

Os benefícios são mensuráveis: menos procedimentos por doente ao longo da vida, menor probabilidade de recorrência da arritmia e, quando esta ocorre, uma carga arrítmica significativamente inferior. Uma ablação bem localizada é, por definição, uma ablação mais segura.

Imagem de painel de cirurgia de ablação.

Segurança, riscos e recuperação da ablação

Como qualquer intervenção cardiovascular, a ablação não é isenta de riscos. No entanto, em centros experientes e com equipas dedicadas, a taxa de complicações graves é inferior a 1 % - um valor que deve ser lido à luz do risco acumulado de não tratar a doença.

Uma das ferramentas que mais contribui para este perfil de segurança é o ecocardiograma intracardíaco: uma pequena sonda de ecografia posicionada dentro do próprio coração durante o procedimento, que permite monitorização contínua em tempo real. A sua utilização está associada a uma redução demonstrada de complicações e a melhores resultados a longo prazo.

A recuperação é, na maioria dos casos, rápida e bem tolerada. No próprio dia do procedimento, o doente levanta-se para o cadeirão; no dia seguinte, já se movimenta e realiza a sua higiene de forma autónoma. Nas primeiras duas semanas são recomendados alguns cuidados com o local de punção, mas ao fim desse período o regresso à vida normal é completo - condução, exercício físico, atividade profissional, sem restrições.

 

O coração vigiado de Esmeralda

Mais de um ano após a ablação, o monitor implantável de Esmeralda Rodrigues continuava a fazer o seu trabalho em silêncio - confirmando a ausência de recorrência da fibrilhação auricular e a eficácia da intervenção. O impacto na sua qualidade de vida foi considerável.

Hoje, caminha uma hora por dia, todas as manhãs. Começou por 20 minutos, com cansaço, e foi aumentando gradualmente. Mantém a monitorização cardíaca - que viria a permitir identificar e tratar outra arritmia de forma atempada e segura - e tem confiança naquilo que a protege.

A mensagem que fica não é de alarme, mas de alerta e de possibilidade. Existem tratamentos eficazes para as arritmias, centros com experiência consolidada e tecnologia que permite personalizar cada procedimento. Uma alteração do ritmo cardíaco não deve ser desvalorizada, o diagnóstico não deve ser adiado, e o acesso a cuidados especializados deve ser privilegiado. Sempre que alguém percecione algo diferente no seu ritmo cardíaco - mesmo que seja difícil de descrever - deve procurar apoio médico especializado.

Publicado a 01/03/2026