Pacemaker: o que é e como pode salvar vidas

Se o coração bate devagar, por bradicardia ou bloqueio cardíaco, o pacemaker pode ser a solução. É um procedimento simples, com anestesia local.

O nosso coração emite impulsos elétricos para bombear sangue a um ritmo específico, que por vezes pode ser demasiado lento. Quando um doente tem um pacemaker colocado, se o coração demora a emitir o batimento cardíaco seguinte, “aquilo que o pacemaker faz é entregar eletricidade que vai fazer com que o coração funcione”, explica o cardiologista Helder Santos. Habitualmente, são as pessoas mais idosas que necessitam de um pacemaker, normalmente devido a bradicardia (frequência cardíaca muito baixa) ou bloqueio cardíaco, mas não só. “Hoje implantamos também para os corações que, mercê da sua deterioração elétrica, precisam de estimular o sistema elétrico”, afirma o também cardiologista Mário Martins Oliveira, destacando “algumas formas de insuficiência cardíaca em que o sistema elétrico não está a funcionar bem”. Os dois cardiologistas CUF explicam o que é um pacemaker, em que situações deve ser implantado, que tipo de cuidados são necessários e quais as vantagens ou riscos para o doente.



O que é um pacemaker?

“Um pacemaker é um dispositivo cardíaco eletrónico que tem a capacidade não só de monitorizar o ritmo cardíaco do doente, mas também de administrar terapias”, descreve Helder Santos. Segundo o cardiologista, trata-se de “uma energia elétrica que faz com que o coração possa funcionar e ter os batimentos cardíacos apropriados”. Mário Martins Oliveira reforça a abrangência de atuação: “O pacemaker vai assegurar [esse funcionamento] na maior parte das vezes em que o coração tenha falhas, tenha paragens, tenha períodos em que bate muito devagar.”

É um dispositivo que já existe há décadas, tendo evoluído exponencialmente em termos de redução do peso e volume ou de durabilidade. E segundo Mário Martins Oliveira, Portugal é um exemplo na utilização da tecnologia: “Implantamos muitos pacemakers, estamos no Top 3 da Europa no número de pacemakers que se implanta, portanto, há muita experiência nos diferentes hospitais e cobertura nacional”.

 

Em que situações pode ser necessário um pacemaker?

A decisão clínica de implantar um pacemaker baseia-se em critérios específicos, como bradicardia, “quando a frequência cardíaca está muito baixa”, descreve Helder Santos, “quando o ritmo cardíaco está mais lento do que aquilo que é o habitual, abaixo de 50 ou 60 batimentos por minuto”. Lembra também que “nem todas as bradicardias são indicação para pôr um pacemaker, mas é um sinal a que devemos estar alerta e, portanto, monitorizar”, principalmente quando há uma diferença muito grande entre o dia e a noite, ou quando os batimentos estão muito baixos durante o dia. Além disso, também os bloqueios cardíacos são uma indicação para pacemaker, mas nem todos, “têm de ser bloqueios avançados, designados do 2 .º ou 3 .º grau”.

Mário Martins Oliveira refere também a insuficiência cardíaca, principalmente nos idosos, que “vêm a precisar de implantar um pacemaker para terem uma vida normal e terem a capacidade de se deslocar e fazer a sua vida sem tonturas, sem desmaios e sem cansaço extremo”. De acordo com o cardiologista, “atualmente, é possível usar o pacemaker, não só para tratar os problemas do ritmo, de ser muito lento ou ter pausas, mas também para tratar algumas formas de insuficiência cardíaca em que o sistema elétrico não está a funcionar bem”.

Quanto ao tipo de candidatos a este procedimento, além da idade ser um fator decisivo, Helder Santos afirma que “a indicação para pôr um pacemaker é independente do género, é igual tanto nos homens como nas mulheres”.

 

Pacemaker e cardiodesfibrilhador: que diferenças?

Outro dispositivo que atua sobre o coração é o cardiodesfibrilhador, mas, apesar de serem ambos implantáveis, têm funções distintas. O cardiologista CUF Helder Santos explica que, enquanto o pacemaker atua na bradicardia, por exemplo, “o cardiodesfibrilhador é para doentes que têm arritmias muito rápidas potencialmente fatais”, podendo ter diferentes atuações. Em doentes, por exemplo, “com taquicardia ventricular ou fibrilhação ventricular”, o cardiodesfibrilhador “vai fazer dois tipos de terapias: ou entregar um pacing muito rápido para tentar diminuir e reverter esta taquicardia; ou então administrar um choque elétrico que faz de certa forma o coração reiniciar-se”, descreve Helder Santos.

 

Como é feito o implante do pacemaker?

O procedimento de implantação do pacemaker tem poucas alterações desde que começou a ser realizado. Helder Santos explica que “a implantação normalmente é feita à esquerda, na zona do ombro e do peitoral. Fazemos um pequeno corte nessa zona e, depois de fazer esse pequeno corte, temos acesso através das veias ao coração”. A partir daí, são colocados os elétrodos, “pequenos fios presos no coração”, ligados subcutaneamente a um gerador, “uma pilha que vai entregar a energia ao doente, quando este necessitar”. O cardiologista indica que, para um pacemaker convencional, a intervenção demora 45 minutos a uma hora “porque são dispositivos simples, em que temos de deixar dois ou mesmo apenas um fio no coração”.

Existem também os dispositivos de ressincronização cardíaca, em que “o procedimento pode demorar cerca de duas horas, porque são tecnicamente mais desafiantes e mais complexos”.

 

Passos para implantar um pacemaker:

  • Pequena incisão na zona do ombro;
  • Inserção de elétrodos no coração através das veias;
  • Ligação ao gerador, que é colocado sob a pele;
  • Testes e encerramento da incisão.

 

Mário Martins Oliveira, por seu turno, reforça que o procedimento é feito com anestesia local, “portanto, as pessoas não têm de ficar assustadas porque vêm fazer uma intervenção, é com anestesia local, um ambiente muito controlado, muito calmo, os médicos da nossa rede nesta área têm muita experiência na colocação do pacemaker”. Helder Santos lembra também que “o doente está acordado, a conversar connosco, a participar em tudo que sejam as decisões durante o procedimento”.

Pacemaker implantado visto através de ecrã numa cirurgia.

Pós-operatório: como é a recuperação

“Atualmente a maior parte dos doentes que põem pacemaker podem ter alta no próprio dia em que fazem o implante e, portanto, isso prova o quão segura e eficaz é esta terapia”, refere Helder Santos. O cardiologista CUF explica que “durante duas a quatro semanas recomendamos repouso do membro” (braço esquerdo), indicando que a pessoa “pode fazer a sua vida, pode mexer o braço, não convém é pegar em pesos e fazer força com este membro”. Além disso, nos primeiros oito dias, recomenda-se a aplicação de gelo no local e vigiar a ferida cirúrgica. Após as quatro semanas, “o doente pode iniciar e manter a sua vida normal e quotidiana que tinha previamente à implantação do pacemaker e retomar as suas atividades totalmente normais”.

 

Sabia que…

Pessoas que têm um pacemaker devem ter sempre consigo o documento que comprova que são portadores deste equipamento.

 

Colocar um pacemaker tem riscos?

Helder Santos refere que “a implantação de um pacemaker é um procedimento relativamente simples, normalmente não tem grandes complicações”. Como é invasivo, “os riscos mais frequentes são hematomas no local da ferida. Pode haver eventualmente um pneumotórax em algumas punções que fazemos, mas são acontecimentos muito raros”. 

Mário Martins Oliveira lembra, por outro lado, que “pode haver um ou outro doente em que o elétrodo, no dia seguinte, ou na semana seguinte, ou algum tempo depois, deixe de funcionar bem”. No entanto, basta colocar um elétrodo diferente ou mudá-lo de sítio. “São aquelas complicações que nós dizemos que se gerem com calma, com tranquilidade e bom senso”, reforça, indicando que são de resolução fácil e rápida.

 

Cuidados a longo prazo

“Normalmente, após o implante recomendamos que a cada seis meses a um ano o doente seja monitorizado”, indica Helder Santos, “para garantir que está tudo bem com o dispositivo e que há bateria”. Tirando isso, não há limitações. O cardiologista CUF lembra, por exemplo, uma ideia errada que circulava frequentemente: “Um dos mitos que existia era que quem punha um pacemaker não podia fazer muitas coisas, por exemplo, pôr o telefone no bolso da camisa. Pode, isso não é um problema, é um mito, simplesmente”.

 

Rede CUF: resposta integrada de Norte a Sul

“A rede CUF tem neste momento implementada, em todo o país, uma estrutura em rede que inclui hospitais, clínicas e, mais recentemente, centros de saúde, onde estão médicos de Medicina Geral e Familiar. Esta rede possibilita um sistema de comunicação entre várias especialidades, que permite, em qualquer altura, referenciar doentes para os hospitais onde se faz intervenção” e assim tratá-los de forma mais diferenciada. Além disso, o especialista destaca os “recursos humanos altamente diferenciados que temos nesta área do tratamento das arritmias e também a aparelhagem técnica”. 

Segundo o cardiologista, “várias Unidades de saúde CUF têm Atendimento Permanente e muitas vezes os hospitais são contactados durante a noite, durante o fim de semana”. É possível “referenciar doentes para os hospitais onde se faz intervenção, a partir quer de consulta regular ou de uma consulta ocasional que um médico tenha com um doente que acha que pode precisar de uma intervenção, por exemplo, na área dos pacemakers ou de outros aparelhos que implantamos no coração”, completa.

Publicado a 18/12/2025