Tumores da hipófise: é sempre preciso tratar?

Cérebro e saúde mental
10 mins leitura

A hipófise é o “maestro” do nosso corpo e, por vezes, podem surgir tumores, que na maioria das vezes são benignos, mas podem impactar a saúde e o bem-estar.

Embora muitas vezes silenciosos, os tumores da hipófise podem impactar profundamente a saúde. A boa notícia é que a maioria é benigna e tem tratamento eficaz. “Os tumores da hipófise costumam ser benignos, muitas vezes de crescimento lento”, refere o neurocirurgião Amets Sagarribay, que reforça: "A preocupação deve existir quando há excesso de produção hormonal, crescimento tumoral ou compressão de estruturas vizinhas.”

Segundo a endocrinologista Paula Freitas: "Os tumores da hipófise, de um modo geral, não são muito frequentes e representam cerca de 10 a 15 % de todos os tumores intracranianos. Felizmente, os tumores malignos da hipófise são muito raros, são menos de 0,1 %."

Embora os estudos em autópsias e em ressonâncias magnéticas mostrem que até 15-20 % da população pode ter pequenas lesões hipofisárias, a maioria destas não causa sintomas nem necessita de tratamento - são os chamados “incidentalomas”. Apenas uma minoria dos tumores da hipófise provoca excesso de hormonas, compressão das estruturas vizinhas ou défice hormonal e, por isso, requer vigilância ou intervenção médica.

Fique a saber mais sobre os tumores da hipófise - dos diferentes tipos aos tratamentos disponíveis - e conheça a história de Cátia Matos, operada a um macroadenoma hipofisário.



O que é a hipófise e qual a sua função?

"A hipófise é o grande ‘maestro’ do corpo. Produz hormonas que regulam praticamente todas as funções essenciais, desde o metabolismo até à reprodução", explica Paula Freitas.

Apesar de ser uma glândula pequena, a hipófise, também conhecida como pituitária, tem um impacto imenso no funcionamento do organismo. Localizada na base do cérebro, numa estrutura óssea denominada sela turca, esta glândula endócrina regula a produção de hormonas essenciais, influenciando o crescimento, a fertilidade, o metabolismo, a resposta ao stress, entre outras.
Quando surgem tumores nesta região, a produção hormonal pode ficar alterada, levando a excesso ou défice de hormonas, com implicações significativas para a saúde.


A hipófise divide-se em duas partes:

  • Adenohipófise (anterior): responsável pela produção de várias hormonas que controlam outras glândulas do corpo;
  • Neurohipófise (posterior): ligada ao sistema nervoso central, controla funções como o equilíbrio hídrico ou a produção hormonal com efeitos durante o parto e lactação.

 

Os tumores da hipófise e os seus impactos

A maioria dos tumores hipofisários, no adulto, corresponde a adenomas, formações benignas que, embora não cancerígenas, podem interferir no funcionamento hormonal ou pressionar estruturas vizinhas, como os nervos óticos.


Os adenomas hipofisários dividem-se em dois grandes grupos:

  • Adenomas funcionantes, que produzem hormonas em excesso, provocando alterações fisiológicas e sintomas específicos;
  • Adenomas não funcionantes, que não produzem hormonas, mas podem crescer e afetar estruturas próximas, como os nervos óticos, causando problemas de visão, ou diminuição hormonal por afetação da própria glândula.

 

Como explica o neurocirurgião Amets Sagarribay, “há uma diferença entre um tumor que aparece num exame de ressonância e um tumor que realmente precisa de ser tratado”. Em estudos realizados com autópsias e exames de imagem, estima-se que até 15-20 % da população possa ter pequenas lesões hipofisárias, muitas delas sem qualquer consequência clínica. No entanto, os adenomas que efetivamente causam doença - por produção excessiva de hormonas ou por compressão de estruturas adjacentes - são bastante menos frequentes, ocorrendo apenas em algumas dezenas de casos por cada 100 mil habitantes.

 

Sintomas: quando suspeitar de um tumor da hipófise?

Cada tipo de tumor hipofisário apresenta sintomas distintos, dependendo da hormona envolvida. A endocrinologista Paula Freitas dá alguns exemplos:

  • Prolactinoma (adenoma funcionante): ausência de menstruação (amenorreia), infertilidade, produção de leite nos mamilos e perda de libido no homem;
  • Doença de Cushing (adenoma funcionante): provoca aumento de peso localizado (abdómen e rosto), estrias, perda de cabelo e fraqueza muscular. Segundo Paula Freitas, "cerca de 5 % das pessoas que têm obesidade podem, de facto, ter um tumor da hipófise. É uma obesidade mais central, portanto, com predomínio da gordura a nível abdominal. Também pode haver uma deposição da gordura no cachaço, aquilo que se designa por ‘pescoço de búfalo’. As pessoas podem ter uma fraqueza muscular, falta de forças, por exemplo; podem também ter osteoporose", detalha. E alerta: “Se nós tratarmos a doença de Cushing, tratamos todas estas manifestações associadas à doença”.
  • Acromegalia (adenoma funcionante): “É um tumor em que a hipófise produz uma hormona, que é a hormona de crescimento”, explica, e que se manifesta pelo crescimento das mãos e pés, alterações faciais, voz mais rouca e apneia do sono. “Estes doentes têm também muitas vezes diabetes pela primeira vez, têm hipertensão, têm colesterol alto, ou seja, tudo manifestações metabólicas, mas são, sobretudo, as alterações faciais. Muitas vezes, as pessoas interpretam como o envelhecimento”, refere.

Contudo, a especialista em Endocrinologia realça que “nem todas as pessoas têm estas manifestações, ou seja, quanto mais tempo nós demorarmos a diagnosticar, maior a probabilidade destes sinais e destes sintomas se instalarem”.

 

Atenção!

“Quanto mais precoce for o diagnóstico, menos sintomas e comorbidades a pessoa tem. Portanto, o diagnóstico precoce, o tratamento atempado, vai fazer com que estas pessoas tenham uma melhor qualidade de vida e uma maior quantidade de vida”, alerta a endocrinologista Paula Freitas.

 

Um diagnóstico que pode levar anos

Muitas pessoas vivem anos sem perceber que têm um tumor na hipófise. Como explica a endocrinologista, “nos tumores de hipófise, o mais importante é sempre uma história clínica bem feita, ou seja, tentar perceber quais são os sintomas e os sinais que o doente tem, o tempo de evolução e a sua instalação”. E tudo começa com os exames hormonais. “Depois do diagnóstico laboratorial, são realizados exames de imagem. Habitualmente, o exame de eleição é a ressonância magnética e, em alguns destes tumores, o tratamento é apenas médico, com fármacos”. Contudo, há situações em que o tratamento numa primeira linha é cirúrgico”.

 

Sabia que...

Na maior parte das vezes, estes tumores são descobertos por acaso, frequentemente em exames de imagem realizados por outros motivos.

 

Na primeira pessoa: do diagnóstico à decisão de operar

O caso de Cátia Matos é um exemplo de como os sinais mais simples podem esconder diagnósticos complexos. Após o nascimento da sua filha em 2018, desvalorizou a ausência de menstruação, por já ter um ciclo irregular. Passados dois anos decidiu procurar ajuda médica. "Ao fim de dois anos, achei que deveria ir a uma consulta de Ginecologia", recorda. A medicação inicial não surtiu efeito e, após avaliação em Endocrinologia, uma ressonância magnética confirmou um macroadenoma hipofisário.

“Fiz a ressonância e quando vi o resultado é que me assustei um bocadinho, porque realmente vinha lá que eu tinha um macroadenoma e a dimensão dele, e já era significativo.” Após nova avaliação, foi tomada a decisão de realizar cirurgia, com o tumor a revelar-se não funcionante e próximo do quiasma ótico. "Passei por várias consultas de especialidade e depois de várias reuniões entre os médicos, foi quando se chegou à conclusão que o melhor era retirar esse tumor. E foi assim que parti para a cirurgia”, conta.

 

Cirurgia: uma abordagem minimamente invasiva

O tratamento depende do tipo de tumor e do impacto na vida do paciente. No caso dos prolactinomas, a abordagem inicial é a terapêutica médica. Já para outros adenomas, a cirurgia continua a ser a opção inicial.

A maioria dos tumores hipofisários é tratada com cirurgia endoscópica pelo nariz, sem necessidade de abrir o crânio - como foi o caso de Cátia Matos. O neurocirurgião Amets Sagarribay desmistifica o procedimento e realça a evolução técnica das abordagens cirúrgicas: "Quando falamos do cérebro, as pessoas pensam que temos de abrir a cabeça. Isso não é verdade, a hipófise não faz parte do cérebro, não vamos ter de mexer no cérebro. Portanto, fazemos uma abordagem através do nariz, usamos um endoscópio muito fino, que será os nossos olhos durante a cirurgia, que levamos até à zona da hipófise para podermos ver, e depois vamos ter que retirar esse tumor. Não fazemos cicatrizes externas, portanto, é tudo feito pelo interior do nariz através de uma cirurgia minimamente invasiva, que permite que o doente tenha um pós-operatório bastante mais tranquilo do que à primeira vista pensaria”.

 

O pós-operatório de Cátia Matos

A cirurgia de Cátia correu bem e o acompanhamento por uma equipa multidisciplinar ajudou-a a recuperar a saúde e a qualidade de vida. Tanto que, apesar de ter sido alertada de que poderia ser difícil voltar a ser mãe, conseguiu engravidar de novo. Após a cirurgia, o paciente pode necessitar de ajustes hormonais. Foi o caso de Cátia Matos, que terá de tomar medicação ao longo da sua vida para equilibrar um défice hormonal, tendo levado cerca de um ano a conseguir estabilizar os níveis. Além disso, o acompanhamento contínuo em Endocrinologia e Neuroftalmologia mantém-se, fazendo ressonâncias magnéticas de vigilância.

Destaca ainda o papel do apoio clínico que foi tendo ao longo do processo: “A equipa clínica foi fundamental e a ligação entre eles também. Estavam sempre em contacto uns com os outros. Quando eu chegava a uma consulta já sabiam o que tinha acontecido na consulta anterior da outra especialidade e também me apercebia de que tinham muitas reuniões multidisciplinares para discutir o meu caso”. Essa coordenação foi essencial para a confiança de Cátia no processo: “Sei que estão todos em consenso.”

 

Diagnóstico e tratamento: o papel da equipa multidisciplinar

A colaboração entre neurocirurgiões, endocrinologistas e outros profissionais de saúde é essencial para garantir o melhor resultado clínico. Como reforça o neurocirurgião Amets Sagarribay, o sucesso do tratamento depende de uma equipa médica integrada: “Hoje em dia, qualquer tipo de patologia devia ser acompanhada por um grupo multidisciplinar de especialistas”. As especialidades que integram este tipo de Unidade de Tumores da Hipófise são, por um lado, a Endocrinologia, por outro lado, a Neurocirurgia, que seriam os pivots das unidades multidisciplinares sobre a doença dos tumores da hipófise. Existe também a presença da Neuroftalmologia, que ajuda a ver como é que está o doente do ponto de vista visual e também ajuda a perceber o prognóstico; a Anatomia Patológica, que são os profissionais que se dedicam a ver as células desses tumores e que ajudam a perceber o prognóstico, como é que vai evoluir ao longo do tempo. Os colegas de Otorrinolaringologia são muito importantes na avaliação pós-operatória e também no intraoperatório, para ajudar nas abordagens e nos encerramentos durante as cirurgias. A Neurorradiologia, que vai mostrar a imagem do tumor e perceber os limites, a relação que tem o tumor com as estruturas que estão à volta. Nalguns casos, precisamos da Radioterapia para aqueles tumores que não conseguimos retirar completamente.”

 

A importância do acompanhamento, mesmo após a recuperação

Mesmo depois do tratamento, é fundamental manter o acompanhamento médico. Os tumores da hipófise podem reaparecer ou deixar sequelas hormonais que exigem controlo e, por vezes, reposição hormonal ao longo da vida.

Perante alterações do corpo (como as descritas ao longo do artigo) ou problemas de visão, é importante procurar um médico especialista o mais cedo possível. O diagnóstico atempado e o seguimento regular podem fazer toda a diferença na qualidade de vida.

No contexto de um diagnóstico recente de tumor da hipófise, ou quando existe a necessidade de uma segunda opinião sobre o tratamento mais adequado ao seu caso, é possível recorrer à Unidade de Tumores da Hipófise CUF, onde uma equipa multidisciplinar especializada avalia cada situação de forma integrada.

Publicado a 04/05/2026