Recuperar a audição com implantes cocleares
Quando os aparelhos auditivos já não são suficientes, a cirurgia para colocação de implantes cocleares pode devolver a audição, de forma segura.
“Em bom rigor, eu não me lembro quando é que comecei a ter os primeiros sinais de surdez. Aos 8 anos, tive a minha primeira consulta de otorrino e fiz os primeiros exames em que tinha, no ouvido direito, uma perda de cerca de 15 %, 20 % de audição”, recorda D.. Já adulta, chegou a um ponto em que “ouvia o som, mas não percebia o que a pessoa estava a dizer”, e os aparelhos auditivos tornavam-se cansativos. Os riscos de segurança e o não conseguir comunicar bem com a família ou outras pessoas tornavam a sua vida cada vez mais complicada.
Nas consultas para as vertigens, consequência da perda de audição, a otorrinolaringologista CUF Teresa Oliveira Matos falou-lhe das possibilidades de um implante coclear, que, em muitos casos, permite recuperar a audição. A intervenção permitiu que D. voltasse a ouvir, e até aprendesse sons que não conhecia: “Eu não conhecia o som da chuva”.
O que são implantes cocleares?
“Um implante coclear é um dispositivo médico, que é introduzido no paciente através de uma cirurgia, e que pretende substituir o ouvido”, explica Teresa Oliveira Matos, e que, em termos de funcionamento, permite “transformar um sinal acústico, que é um som, num sinal elétrico, que depois vai ser transmitido diretamente ao nervo auditivo”. Segundo a otorrinolaringologista CUF, no procedimento é feito “um bypass [uma espécie de ponte que cria uma ligação alternativa entre dois pontos] a uma estrutura que está danificada a nível do ouvido interno, o caracol”.
Quem pode receber um implante coclear?
Existem regras para definir quem pode ter um implante. No entanto, Teresa Oliveira Matos refere que, no geral, “são todos os doentes em que as próteses auditivas, os vulgares ‘aparelhos’, já não são suficientes”. No caso de D., não se tratava tanto de os aparelhos não serem eficazes, mas das consequências do seu uso. “Os aparelhos amplificavam todos os sons, o que se tornava algo um pouco cansativo”, conta, pelo que passou a usar “aqueles amplificadores baratos que se compram em qualquer lado, só para situações pontuais em que precisava mesmo de ouvir”.
Quais as contraindicações para os implantes?
Segundo a otorrinolaringologista CUF, há dois tipos de contraindicações, relativas ou absolutas, que variam também em função de se tratar de uma criança ou um adulto. No caso das contraindicações relativas, “têm sempre de ser avaliadas caso a caso”, ao passo que as absolutas estão melhor definidas.
Entre as contraindicações absolutas estão, por exemplo, doentes que estiveram privados da audição durante muito tempo. “Nós sabemos que o facto de uma pessoa não ouvir durante muito tempo faz com que haja uma atrofia das estruturas neurológicas e o resultado seria pior”, explica Teresa Oliveira Matos. Indica também a “agenesia do caracol, do ouvido interno, uma malformação, ou também uma secção ou uma inexistência do próprio nervo auditivo”. E ainda a “calcificação de todo o caracol”, que pode acontecer no caso de meningites, obrigando a uma avaliação cuidada da audição.
Foi no final dos anos 90 que a audição de D. atingiu o ponto mais baixo, já não conseguia perceber o que as pessoas diziam. Não se adaptou bem a aparelhos auditivos, que usava só quando era mesmo necessário ouvir, porque a deixavam confusa e com dores de cabeça. Mas a sua vida pessoal e familiar começou a ser mais complicada, tinham de gritar para falar consigo, e a sua filha foi alertando também para a segurança. “Mãe, atenção, isto pode colocar em risco a tua vida. Tu podes ir a atravessar a rua e não ouvir um carro, tu podes deixar a água a correr e inundares a casa de banho”, conta D.. Até que, nas consultas de Otorrinolaringologia, percebeu o potencial dos implantes cocleares.
A cirurgia para colocar implantes cocleares
A intervenção para colocar implantes cocleares é semelhante a outras que envolvem o ouvido, mas mais demorada. A otorrinolaringologista CUF explica que “tem sempre de ser feita ao microscópio, porque estamos a falar de estruturas muito pequenas, milimétricas”. É feita uma incisão atrás da orelha, “até chegar ao osso temporal, uma região chamada mastoide”, e a partir daí o procedimento passa por “abrir uma janela inicialmente grande e, depois, à medida que nos vamos aproximando do ouvido interno, ela vai ficando cada vez mais estreita, milimétrica”. Após ser criado o túnel até ao ouvido interno, “fazemos uma janela a nível do caracol, através do qual vamos introduzir o elétrodo”.
Dada a aparente complexidade da cirurgia, D. tinha receio da intervenção ou das consequências. “Eu, ao início, reagia muito negativamente, não queria de maneira nenhuma que me pusessem nada na cabeça”, conta a paciente CUF. Mas com os esclarecimentos que recebeu, ficou mais descansada: “Se calhar, posso confiar na Dra. Teresa para me dar uma melhor qualidade de vida, uma melhor qualidade de vida aos que me rodeiam e uma maior segurança no meu dia a dia”.
Como é o pós-operatório?
Teresa Oliveira Matos afirma que “o pós-operatório não é, por norma, complicado, tirando o facto da pessoa usar uma ligadura para fazer compressão da região onde está o implante durante uma semana”. É retirado algum cabelo junto à orelha, que pode causar uma alteração estética temporária. O internamento é apenas de um dia, “eventualmente dois, se necessitar de uma vigilância maior”, e também “não é uma cirurgia que provoque dor, não é uma cirurgia que implique ficar em repouso absoluto”, pelo que o recomendado é apenas fazer medicação para controlo da dor e antibiótico para prevenção de infeções.
Quanto aos cuidados a tomar, são também simples:
- Não fazer esforços;
- Evitar baixar a cabeça em relação ao resto do corpo;
- Não molhar a zona da cirurgia;
- Evitar a exposição ao calor;
- Dormir com a cabeça um pouco mais elevada.
Foi o que aconteceu a D., que refere que “a operação em si foi muito simples”. “Eu era para estar internada dois dias, mas fui operada um dia ao final do dia, e saí no outro dia de manhã”, lembra.
Riscos e complicações da cirurgia
Como qualquer outra intervenção, a cirurgia do implante coclear pode ter complicações. “Temos de considerar aquelas que podem acontecer durante a cirurgia ou num pós-operatório imediato, e as complicações que podem acontecer mais tarde”, refere a otorrinolaringologista CUF. Durante a cirurgia, refere o risco de hemorragia. No pós-operatório, surge o edema (inchaço causado pela acumulação de líquidos), “tonturas ou desequilíbrio, porque estamos a trabalhar próximo do órgão vestibular do ouvido interno” -, e lembra, ainda, a possibilidade de infeção.
Já numa fase posterior, “pode haver também infeção, nomeadamente uma meningite, que tem de ser tratada de uma forma mais agressiva”, e é possível haver “alguma alteração da pele que está a cobrir o implante, que pode ficar necrosada” (morte dos tecidos). Outras complicações mais raras são a fístula de líquor, uma abertura que faz “comunicação entre a cavidade intracraniana e o ouvido”, e a paralisia facial, ligada aos nervos. “Nós monitorizamos intraoperatoriamente a atividade nervo-facial, é raríssimo acontecer alguma perturbação da função facial e, às vezes, quando acontece, é temporária, mais por edema e não por lesão direta do nervo”, esclarece Teresa Oliveira Matos, reforçando que “as complicações existem, são pouco frequentes, e, mesmo as que acontecem, conseguimos resolver”.
Fase 2: A adaptação ao implante
“O implante coclear difere dos aparelhos convencionais e de um amplificador - que funciona como se estivéssemos só a aumentar o volume da nossa televisão”, explica a otorrinolaringologista CUF. O implante “não permite uma audição exatamente igual àquela que nós tínhamos anteriormente, chamada normal; é uma audição eletrónica, porque há realmente a transformação de um sinal acústico num sinal elétrico”. E, após a colocação do implante, é necessária a ativação do implante com um processador externo. “Entre duas semanas a um mês depois, é feita a ativação do processador”, detalha Teresa Oliveira Matos; depois, “é feito trabalho de programação do próprio implante e, finalmente, de terapia da fala para que o paciente aprenda a ouvir com aquele dispositivo”. A otorrinolaringologista lembra que a ativação é feita por um audiologista e há sempre “uma equipa multidisciplinar envolvida neste tipo de processo”.
A forma como a pessoa “ouve cada uma das frequências é sempre ajustada de paciente para paciente, de acordo com a tolerância de cada um”, continua Teresa Oliveira Matos, e, “depois, vai sendo avaliado mês a mês, durante os primeiros seis meses, havendo uma altura em que o doente já se habituou a ter aquele dispositivo”. Segundo a especialista CUF, “não é igual a uma audição normal, mas, para quem não ouve de um ouvido, é espetacular”.
“Os dispositivos têm vários programas, e eu já passei por vários”, descreve D., que já percorreu todo o processo de adaptação. “Neste momento, estou naquilo a que podemos chamar o terceiro programa. Ainda tenho o quarto, que já está disponível para mim, porque eu controlo o dispositivo pelo meu telemóvel”. Já poderia tê-lo selecionado, mas, da primeira vez que experimentou, não gostou, “porque há aquele som, o chamado sibilar, que é extremamente incomodativo”, pelo que prefere esperar ou testar novamente quando estiver acompanhada pela técnica de audição.
Como é o dia a dia de uma pessoa com implante coclear?
Quem tem um implante coclear pode fazer uma vida normal, como qualquer outra pessoa. De acordo com Teresa Oliveira Matos, “inclusivamente, se quiser ir nadar na piscina, pode utilizar um protetor do dispositivo e nadar com o próprio implante, não precisa de, de repente, deixar de ouvir quando tira o processador”. A otorrinolaringologista CUF explica que os únicos cuidados estão relacionados com “algum traumatismo da região onde está o implante” e ter em atenção que, “quem tem um implante, se tirar o processador, fica sem ouvir”. É muito importante “garantir que o implante está no seu local, que o processador está a funcionar, para poder ter uma vida mais próxima daquilo que teria se não tivesse um implante”.
O implante está sempre no local, só é removido em caso de infeção. Já o processador, “é tirado à noite, quando a pessoa vai dormir”, indica Teresa Oliveira Matos, sendo, no entanto, possível dormir com o mesmo. O processador tem bateria, deve ser “carregado ou com pilhas ou com o carregador, e é ele que vai alimentar o próprio implante que está lá por baixo”. Segundo a otorrinolaringologista, isso é normalmente feito numa frequência diária: “Quase como com os nossos telefones, nós temos de carregar o implante”. “De manhã, quando me levanto, coloco, e à noite quando me deito, retiro”, descreve D.. “Coloco numa caixinha, a luz que aparece é vermelha e temos de aguardar para verificar se fica verde. A partir do momento que a luz fica verde, ele está a carregar”, explica. Adaptou-se bem ao dispositivo, quase nunca o tira: “Só o tirei uma vez - há cerca de duas semanas, fui a um cinema com a minha filha e tive mesmo de tirar porque não era suficiente baixar o som. Foi a única vez em três anos que o tirei, de resto só tiro para dormir, para tomar banho, para dar um mergulho na praia... estou sempre com ele”.
Este equipamento (processador) tem um tempo de vida bastante longo. Se o equipamento tiver algum dano ou se existir a possibilidade de utilizar um com tecnologia mais recente pode ser substituído”, conclui Teresa Oliveira Matos.
O som da chuva e a água a ferver
Hoje, D. reflete sobre a decisão de colocar um implante coclear: “Foi todo um mundo novo, atualmente acho que foi uma excelente decisão. E foi determinante - eu faço questão de dizer isso - para essa decisão a confiança na médica”, explica. A mudança foi completa: “As pessoas estavam habituadas, durante 30 anos, 40 anos, a falar sempre mais alto comigo e agora têm de falar mais baixo - às vezes até mais baixo do que falam normalmente”.
D. entende que qualquer pessoa que possa beneficiar “deve-se aventurar a colocar o dispositivo”. Lembra apenas que é fundamental confiar no médico, como ela confiou, “porque isto é na cabeça, não é na perna, não é no braço”. Os ganhos, os novos sons e aqueles que estavam perdidos, valem totalmente a pena: “Ganha-se muito em termos de qualidade de vida, em termos de interação social, familiar, em termos de conhecer a voz de Harrison Ford, que não conhecia, e agora conheço. O som da água a ferver, o som de um autoclismo, de uma mota a passar na rua, a chuva... eu não conhecia o som da chuva”.