Obesidade: o que é a cirurgia bariátrica robótica
A cirurgia bariátrica é a abordagem mais eficaz no tratamento da obesidade e a robótica pode trazer vantagens. Dois cirurgiões gerais CUF explicam-lhe porquê.
A introdução da robótica veio tornar ainda mais segura a cirurgia metabólica e bariátrica - uma área que tem conhecido uma evolução significativa nas últimas décadas e cujos benefícios ultrapassam largamente o tratamento da obesidade, estendendo-se ao controlo e à prevenção de várias doenças que lhe estão associadas. “A cirurgia da obesidade, além de ser até à data o tratamento mais eficaz para perder peso e manter o peso perdido, aumenta a sobrevida destes doentes”, explica John Preto, cirurgião geral da CUF. Já Carlos Vaz, também especialista em Cirurgia Geral na CUF, lembra que o robô é uma ferramenta para o cirurgião, que “muda a execução. E muda para melhor”.
O que é a cirurgia bariátrica?
A cirurgia bariátrica, também denominada cirurgia metabólica e bariátrica, “designa um conjunto de operações que se desenvolveram e que se fazem hoje em dia para ajudar as pessoas a perder peso”, explica Carlos Vaz, referindo ainda que existem várias vias de abordagem: “Existe a laparoscopia, que também nos permite fazer cirurgia metabólica e bariátrica; a cirurgia aberta, tradicional; e agora a cirurgia robótica, que é uma nova abordagem.”
John Preto reforça que “a grande mudança da abordagem cirúrgica dos anos 90 foi a introdução da cirurgia minimamente invasiva porque verificamos que o doente tinha menos complicações, menos dor pós-operatória e uma recuperação mais rápida”. E agora, a robótica traz “a possibilidade de uma visão estável e imersiva, maior precisão nos gestos e mais destreza, nomeadamente nas cirurgias mais complexas”.
Cirurgia robótica: o papel do robô e do médico
O robô numa cirurgia “é um instrumento que potencia as capacidades ou o talento do cirurgião", descreve Carlos Vaz, “ou seja, o cirurgião tem de estar lá, o robô não tem automatismo” e, “portanto, responde 100 % àquilo que são os comandos do cirurgião que está numa consola”, explica.
Um dos aspetos positivos que o uso do robô traz à cirurgia é que não treme, ao contrário da mão humana, “por mais hábil e por mais sereno que o cirurgião seja”, continua Carlos Vaz, tratando-se de “um intermediário que aumenta a qualidade, a precisão e a segurança dessa execução”.
A quem se destina a cirurgia robótica bariátrica?
Entre os doentes que mais podem beneficiar da abordagem robótica encontram-se aqueles com superobesidade - um grau particularmente elevado de obesidade -, explica o cirurgião John Preto. Nestes casos, a maior espessura da parede abdominal pode tornar a cirurgia laparoscópica convencional tecnicamente mais exigente. Outro grupo particularmente indicado é o dos doentes submetidos a cirurgia revisional, isto é, a uma nova intervenção destinada a modificar, corrigir ou tratar complicações de uma cirurgia bariátrica anterior. Estas intervenções podem representar entre 15% e 20% das cirurgias bariátricas. Com efeito, nas cirurgias mais complexas “a robótica tem uma vantagem enorme”.
O cirurgião geral Carlos Vaz afirma, por seu turno, que os programas de perda de peso convencionais, sem cirurgia, “têm índices de sucesso inferiores a 10 %, e, por isso, foi necessário desenvolver algum tratamento mais eficaz”. Lembra ainda que quem tem obesidade mórbida “tem uma doença grave”, assim classificada pela Organização Mundial da Saúde, daí a necessidade de cirurgia. “Pretendemos que o estômago seja mais pequeno e o doente tenha uma sensação de saciedade precoce, tenha menos fome”, continua Carlos Vaz. Idealmente, pretende-se também que o alimento estimule precocemente na refeição a zona terminal do intestino e, desta forma, obter os efeitos metabólicos mais poderosos destas intervenções cirúrgicas.
Diabetes: o papel da cirurgia metabólica e da robótica
A cirurgia metabólica e bariátrica melhora muito significativamente a diabetes tipo 2 em praticamente todos os doentes e os procedimentos mais recentes que atuam sobre o íleon (parte final do intestino delgado) podem mesmo conduzir à remissão completa da doença na maioria dos casos. Por essa razão, cada vez mais pessoas com diabetes tipo 2 procuram estas soluções, mesmo quando têm pouca obesidade - ou, em situações cuidadosamente selecionadas, quando não apresentam obesidade. Nestes doentes, a segurança assume uma importância ainda maior. Quando existe indicação para cirurgia metabólica, a robótica permite realizá-la com o máximo grau de segurança atualmente disponível.
Cirurgia bariátrica robótica: menos complicações, menos dor, melhor recuperação
A cirurgia robótica conserva as vantagens da cirurgia laparoscópica - nomeadamente menos dor e uma recuperação mais rápida -, mas permite ir mais longe em termos de precisão e segurança. Segundo Carlos Vaz, “o risco global de complicações, que na cirurgia laparoscópica se situa entre 2 % e 3 %, pode, com a abordagem robótica, diminuir para valores da ordem de 1 em 500 ou mesmo de 1 em 1.000”. A robótica permite ainda “realizar por via minimamente invasiva procedimentos de grande complexidade que, no passado, não eram efetuados ou exigiam uma cirurgia aberta convencional”. Para os doentes, isto traduz-se em “menos complicações, internamentos tendencialmente mais curtos e um regresso mais rápido às atividades quotidianas e profissionais”.
Como são a cirurgia e o pós-operatório?
John Preto explica que “os doentes são avaliados em ambiente de equipa multidisciplinar, não só pelo cirurgião, mas também por endocrinologista, nutricionista e psicólogo”, e ainda por outras especialidades, se necessário, “como Psiquiatria, Pneumologia, Cardiologia e Gastrenterologia”. Depois, tendo em conta a gravidade ou outros fatores, “alguns doentes são indicados para tratamento médico inicial, outros são indicados imediatamente para uma abordagem cirúrgica. E depois, dentro da abordagem cirúrgica, o cirurgião e a sua equipa decidirão se é melhor fazer a abordagem por laparoscopia ou por cirurgia robótica, uma vez que a CUF dispõe dessa tecnologia”.
Durante o procedimento, o robô “permite ao cirurgião, através da consola, fazer um conjunto de técnicas e de procedimentos que o cirurgião sozinho, com as suas mãos em cima do doente, não consegue fazer”, descreve Carlos Vaz, sendo uma tecnologia particularmente relevante em movimentos mais sensíveis durante uma cirurgia. O cirurgião geral da CUF explica que, após a intervenção, normalmente o doente fica internado entre 24 e 48 horas.
Depois, em casa, a recuperação passa por:
- Atividade física normal, como tarefas domésticas, ao fim de duas a três semanas;
- Atividade física intensa, como ginásio, às quatro semanas;
- Alimentação com líquidos, semi-líquidos ou pastosos, durante quatro semanas;
- Alimentos sólidos ao fim de quatro semanas.
A importância da cirurgia na obesidade
“Nós sabemos que há um painel de doenças que estão associadas à obesidade”, refere John Preto. “Ao longo da evolução da obesidade num paciente, ele corre risco de desenvolver algumas doenças, como diabetes tipo 2, apneia de sono, hipertensão e subida de colesterol ou de triglicéridos, as chamadas dislipidemias”. O tratamento da obesidade é uma prioridade, e a cirurgia é o método mais eficaz.
Segundo o cirurgião da CUF, os medicamentos para tratamento da obesidade (tipicamente fármacos injetáveis, agonistas dos recetores do GLP-1 - como o liraglutido ou o semaglutido) “têm o potencial de poder ajudar o doente a perder peso, mas há estudos que demonstram que quando o doente deixa de tomar os medicamentos, há um risco de voltar a reganhar o peso”. Assim, “a cirurgia da obesidade continua a ser o único tratamento eficaz para perder e manter o peso perdido”, reforça John Preto, “porque nós, ao realizarmos uma cirurgia, estamos a alterar a anatomia do doente de forma cientificamente comprovada para tratar a obesidade, e para resolução de algumas das suas doenças associadas. E a cirurgia robótica, quando é possível ou recomendada, consegue isso de uma forma mais rápida, eficaz e segura.
A evolução na cirurgia robótica
A cirurgia robótica é uma tecnologia que está ainda a crescer e requer aprendizagem das equipas médicas, através de programas de treino e instrutores acreditados, explica Carlos Vaz. É preciso investimento e formação, mas as vantagens são grandes e em Portugal a tecnologia está a disseminar-se. Carlos Vaz lembra que “a CUF começou há 10 anos e foi uma das instituições pioneiras em Portugal na cirurgia robótica”.