Três tumores, uma única intervenção: cirurgia colorretal evita remoção total do intestino
Abordagem multidisciplinar une Gastrenterologia e Cirurgia Geral em procedimento para remover três lesões e preservar a qualidade de vida. Saiba mais.
Durante um exame de rastreio de rotina, foi identificado um cenário clínico complexo num paciente: a presença de três tumores no cólon (intestino grosso) em localizações distintas. Duas destas lesões foram classificadas como pré-malignas, e uma terceira lesão, situada na zona do sigmoide (a parte final do cólon), já apresentava características de malignidade.
Perante a dimensão e a dispersão destes três tumores no caso deste doente, a sua remoção através de técnicas endoscópicas tradicionais era inviável. Numa abordagem cirúrgica convencional, a única solução segura para garantir o rigor oncológico seria a colectomia total, ou seja, a remoção completa de todo o intestino grosso. Este procedimento radical tem um impacto profundo na vida do paciente, resultando frequentemente em alterações permanentes no trânsito intestinal e na necessidade de adaptações drásticas no quotidiano.
Solução inovadora: união entre duas especialidades no Bloco Operatório
Para evitar a remoção total do órgão e salvaguardar a qualidade de vida pós-operatória do doente, as equipas médicas uniram esforços numa estratégia pioneira em Portugal. O sucesso desta operação residiu na combinação sinérgica das especialidades de Gastrenterologia e da Cirurgia Geral numa única cirurgia, através de técnicas minimamente invasivas.
O procedimento inovador dividiu-se em duas grandes intervenções coordenadas em simultâneo:
- Parte I (Gastrenterologia): André Sancho Ramos, gastrenterologista CUF, realizou uma Dissecção Endoscópica da Submucosa (DES). Esta é uma técnica avançada que permite remover tumores de grande dimensão por via interna (endoscópica), "descolando" a lesão da parede do intestino sem necessidade de cortar o órgão por fora, preservando intacto o cólon direito.
- Parte II (Cirurgia Geral): Em simultâneo, Paulo Vieira de Sousa, cirurgião CUF, procedeu à remoção cirúrgica do cólon esquerdo (onde se encontrava a lesão maligna) por via laparoscópica (cirurgia realizada através de pequenos furos com o auxílio de uma câmara), realizando de seguida uma anastomose primária (a união direta e imediata das extremidades saudáveis do intestino).
Esta abordagem permitiu o cumprimento das rigorosas margens oncológicas necessárias para tratar o tumor maligno, ao mesmo tempo que salvou a maior parte do intestino grosso do paciente.
Tecnologia e recuperação
Esta técnica cirúrgica conjunta representa um marco de inovação em Portugal, encontrando paralelo apenas em centros de referência mundial como no Japão e na Coreia do Sul.
A cirurgia teve a duração planeada de 3 horas e decorreu com normalidade, revelando-se um sucesso. As vantagens desta abordagem multidisciplinar e minimamente invasiva refletem-se diretamente na recuperação do doente:
- Menos dor e trauma: a laparoscopia recorre apenas a pequenas incisões, reduzindo drasticamente a dor pós-operatória face à cirurgia aberta tradicional.
- Recuperação célere: o plano pós-operatório incluiu apenas 48 horas de observação na Unidade de Cuidados Intensivos (UCI), com o reinício da dieta e a normalização do trânsito intestinal entre o quarto e o quinto dia.
- Preservação da qualidade de vida: ao evitar a perda total do intestino, o paciente mantém a sua funcionalidade digestiva praticamente intacta, garantindo um quotidiano normal no futuro.
Este caso clínico demonstra de forma inequívoca que o futuro da medicina passa pela personalização, pela multidisciplinaridade e pela inovação tecnológica, provando que os rastreios periódicos salvam vidas da forma menos agressiva possível.