CUF integra ensaio inovador contra o cancro
Portugal está na linha da frente da investigação oncológica mundial com a chegada de um novo e promissor ensaio clínico internacional direcionado para o tratamento do cancro da cabeça e pescoço. O Hospital CUF Descobertas assume um papel de destaque neste avanço, posicionando-se como um dos cinco centros de investigação selecionados em território nacional para desenvolver o estudo de Fase III, que planeia recrutar cerca de 500 doentes até 2029.
O projeto conta com a liderança do médico oncologista e investigador principal Diogo Alpuim Costa, que detalhou o impacto e as expectativas desta terapêutica inovadora em entrevista ao programa "Expresso da Manhã", do jornal Expresso.
Ao contrário das abordagens convencionais, o foco central da investigação assenta na utilização do Amivantamab — um anticorpo biespecífico altamente inovador, sob a forma de injeção subcutânea, em combinação direta com regimes de imunoterapia. O estudo avalia o impacto de associar novos anticorpos monoclonais desenvolvidos para bloquear os recetores específicos que estimulam o crescimento descontrolado das células tumorais.
O grande objetivo clínico é potenciar e "desbloquear" a resposta natural do sistema imunitário do próprio doente. Ao fazê-lo, as defesas do organismo são reprogramadas para reconhecer, atacar e destruir as células malignas de forma dirigida, minimizando o impacto nos tecidos saudáveis e preservando a qualidade de vida e funções vitais do doente (como a fala e a deglutição).
Resultados clínicos precedentes
Os dados que validaram a transição desta investigação para a Fase III foram apresentados no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), em Chicago, gerando grande entusiasmo na comunidade médica.
Num universo avaliado de 102 doentes integrados nas fases iniciais do tratamento com esta substância, os resultados mostraram-se promissores, sendo que 77% dos doentes tiveram, assim, benefício clínico, 42% com resposta significativa e 15% com resposta completa, oferecendo uma nova perspetiva de tratamento para cenários clínicos tradicionalmente muito agressivos.
Critérios de elegibilidade e doentes beneficiados
O ensaio clínico destina-se estritamente a pessoas diagnosticadas com carcinomas de células escamosas da cabeça e do pescoço (o tipo histológico mais comum nesta região, que engloba tumores na boca, língua, faringe ou laringe).
Para que os doentes possam ser considerados elegíveis pelas equipas de investigação médica, devem cumprir os seguintes critérios estabelecidos no protocolo internacional:
- Apresentar tumores em estado avançado, recorrente ou metastático que sejam considerados incuráveis através de abordagens locais isoladas (como a cirurgia ou a radioterapia convencionais).
- Não ter recebido qualquer tratamento sistémico prévio (como quimioterapia clássica) para a doença na sua fase metastática.
- O estudo foca-se primordialmente em carcinomas não associados à infeção pelo vírus do Papiloma Humano (HPV), uma vez que este perfil de tumor costuma apresentar maior complexidade de tratamento e necessita de alternativas terapêuticas urgentes.
Uma nova janela de esperança em Portugal
A inclusão da CUF nesta rede internacional de investigação reforça o compromisso contínuo da instituição com a inovação médica. Para além de elevar os padrões de tratamento oncológico no país, o ensaio clínico garante que doentes com prognósticos severos tenham acesso precoce, seguro e totalmente gratuito a linhas terapêuticas de vanguarda que procuram travar a progressão da doença.
Ouça a entrevista completa aqui