Doença renal crónica

O que é?
Sintomas
Causas
Diagnóstico
Tratamento
Prevenção

Consiste numa lesão renal com perda progressiva e irreversível da função renal. Na sua fase mais avançada, os rins deixam de ser capazes de manter a normalidade no meio interno do paciente.

Estima-se que em Portugal mais de 800 mil pessoas sofram desta doença. Todos os anos são registados 2.200 novos casos em fase terminal, existindo atualmente 14 mil doentes dependentes de diálise, dos quais cinco mil são transplantados. Pode atingir todas as idades e géneros, embora a sua incidência seja maior nos adultos e idosos.

A diabetes, a obesidade e a hipertensão arterial são três dos fatores que contribuem para que no futuro os números possam ser ainda mais altos, razão pela qual o diagnóstico e o tratamento precoce são fundamentais.

A insuficiência renal pode ser aguda, quando aparece de forma brusca, tendendo normalmente a recuperar, e crónica, quando a falência dos rins se produz de forma lenta e progressiva, sem possibilidades de recuperação. É importante sublinhar que um único rim saudável é suficiente para manter uma função renal completamente normal.

A ausência de sintomas nos primeiros estádios da doença faz com que grande parte da população desvalorize, ignore ou adie os cuidados a ter. Esta inexistência inicial de indícios resulta da capacidade dos rins se adaptarem à perda progressiva da sua função, o que significa que os sinais só aparecem quando a patologia já é muito grave.

Um indivíduo pode estar assintomático até que a função renal esteja a 15% ou 20% face aos valores normais. Na presença de doença renal, de diabetes ou hipertensão (nas fases muito avançadas, até 90% dos pacientes podem ter tensão alta), deve-se consultar um médico especialista para se tentar atrasar, ao máximo, a progressão da patologia, mantendo-se a qualidade de vida. 

Os principais sinais de alerta são ardor ou dificuldade em urinar; urinar frequentemente, sobretudo durante a noite; urinar com sangue; presença de olhos, mãos e/ou pés inchados, especialmente em crianças; dor por baixo das costelas que não se altera com o movimento; tensão arterial elevada. Outras queixas comuns são o cansaço progressivo, a fraqueza generalizada e a fadiga ao realizar esforços pequenos ou moderados. Estes problemas resultam da anemia, habitual na insuficiência renal. Outras vezes, observa-se uma insónia progressiva, em que o doente tem de tomar medicação para conseguir dormir. Com bastante frequência, perante um quadro grave, surgem perda do apetite, náuseas ou vómitos. 

O rim tem como função eliminar a maior parte dos líquidos e resíduos do metabolismo. Por isso, na presença de uma função renal anormal há uma tendência para acumulação de fluidos, mais abundante nas pernas à medida que o dia avança, e na face nas primeiras horas da manhã, ao acordar. Alguns doentes têm também prurido generalizado na pele e apresentam uma cútis seca e pálida.

Sintomas, mais raros, incluem alterações menstruais em mulheres jovens e uma tendência para hemorragias na pele ou perdas de sangue pelo aparelho digestivo.

As causas mais frequentes são as glomerulonefrites, a pielonefrite, os rins poliquísticos, a diabetes e a hipertensão arterial. Podem existir fatores hereditários que aumentam a tendência para doença renal crónica.

O diagnóstico passa pela realização de análises ao sangue e à urina, e pela medição da tensão arterial. Os testes urinários permitem avaliar as perdas de proteínas, bem como a eliminação de sal e de outros elementos. Nos doentes diabéticos é necessário manter um controlo rigoroso dos níveis de glucose, de modo a reduzir o seu impacto sobre a função renal. Pode ainda ser necessário recorrer à ecografia, à tomografia ou à ressonância magnética.

O tipo de tratamento depende da fase em que o doente se encontre. A terapêutica permite corrigir os problemas produzidos pelo mau funcionamento dos rins e evitar a insuficiência renal ou, caso esta já esteja presente, atrasar ou interromper a sua progressão. Inclui regime alimentar e medicação. A dieta ajuda a controlar a tensão arterial e a diminuir a acumulação de substâncias como a ureia, o fósforo ou o potássio, que os rins doentes não conseguem eliminar em quantidade suficiente. Deste modo, os sinais tendem a melhorar e é possível atrasar ou deter a perda das suas funções. A medicação utiliza-se para estabilizar a tensão arterial, para fornecer as hormonas que o rim não é capaz de produzir ou para aliviar vómitos ou prurido.

A quantidade de líquidos que se deve beber varia consoante a quantidade de urina que se elimina diariamente. Quando é muita, é necessário aumentar a ingestão de água. Quando é pouca, há que diminuir a quantidade de líquidos para que não se acumulem. Perante um quadro de tensão arterial alta, deve eliminar-se o sal e não comer enchidos ou conservas. 

Quando os rins funcionam a menos de metade do normal, já não são capazes de eliminar as substâncias resultantes da ingestão das proteínas, sobretudo as da carne e do peixe. Nesses casos, é útil reduzi-las na dieta, compensando-as com outros alimentos. O potássio também se pode acumular no sangue e deve ser vigiado, tal como as gorduras e o açúcar, sobretudo nos doentes diabéticos.

Por outro lado, sempre que necessário, podem ser prescritos medicamentos para controlar a tensão arterial e os níveis de cálcio e de fósforo, e para tratar ou controlar a anemia.

Quando a função renal já não é suficiente para satisfazer as necessidades do organismo, é essencial fazê-lo de um modo mecânico, através da hemodiálise e da diálise peritoneal. Nos dois casos, o objetivo é filtrar o sangue, evitando que as substâncias tóxicas e o excesso de líquidos se acumulem. Estes tratamentos devem ser realizados, em média, três vezes por semana.

Há recomendações que são válidas para a população em geral: manter um peso normal, evitar o tabaco e o álcool, praticar regularmente exercício físico, entre outras. Já a prevenção da doença renal crónica passa pelo controlo de todos os seus fatores de risco, como a diabetes e a hipertensão, e pelo diagnóstico e tratamento precoce de qualquer doença renal, impedindo-se assim a sua progressão. É importante a realização de exames periódicos, cumprir o tratamento prescrito para a diabetes e/ou hipertensão arterial, controlar o excesso de peso, seguir uma dieta saudável e um programa de exercícios periódicos, deixar de fumar, evitar o uso abundante de analgésicos sem prescrição médica, fazer mudanças na dieta, reduzindo o sal e as proteínas, e limitar a ingestão de bebidas alcoólicas.

Fontes

João Egidio Romão Junior, Doença Renal Crônica: Definição, Epidemiologia e Classificação, J Bras Nefrol XXVI (3, Supl. 1), Agosto 2004

National Kidney Foundation, 2013

Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2013

National Kidney Foundation, 2007