Alergias

O que é?
Sintomas
Diagnóstico
Tratamento
Prevenção

As alergias são respostas exageradas do organismo após o contacto com o ambiente que o rodeia, sendo mais frequentes quando existe uma tendência familiar, isto é, um risco genético para a sua ocorrência. Ou seja “as alergias são um excesso de defesas”, por oposição a outras situações clínicas em que existe falta de defesas.

Para além da genética, muitos fatores de risco relacionados com o estilo de vida das sociedades ocidentais – sedentarismo, alteração da dieta, obesidade, poluição dentro e fora dos edifícios, exposição a alergénios, consumo excessivo de medicamentos, nomeadamente de antibióticos – são algumas dos atributos com peso significativo no aumento da expressão quase explosiva que ocorreu nas doenças alérgicas nas últimas décadas. Na Europa, estas enfermidades afetam cronicamente mais de um terço da população e Portugal não é exceção.

A Imunoalergologia ou Alergologia baseia a sua atividade na promoção da saúde, prevenindo, a vários níveis, situações que afetam a qualidade de vida das populações, da asma à rinite, da urticária ao eczema, da alergia alimentar à medicamentosa.

As doenças alérgicas são muito frequentes mas a sua gravidade é variável. Se é bem conhecido que a asma pode ter um desfecho fatal, as picadas de insetos, a toma de medicamentos ou a ingestão de alimentos, não são habitualmente, nem reconhecidas, nem valorizadas, como responsáveis por quadros muito graves.

Em alguns doentes alérgicos o contacto com alergénios, mesmo em quantidades mínimas, pode ser muito perturbador:

  • A ingestão não reconhecida de alergénios alimentares, ocultados em outros alimentos (por exemplo, leite misturado com sumos de frutas ou mesmo com bebidas alcoólicas – “licor de leite”-, pode colocar a sua vida em risco.
  • Os acidentes relacionados com a toma de medicamentos devem ser referidos à equipa de saúde e bem conhecidos pelo próprio e pela sua família e amigos.
  • As reações relacionadas com picadas de insetos, especialmente se muito graves, devem ser rapidamente referidas ao médico assistente, o que geralmente não é efetuado. E a situação pode traduzir um risco de vida permanente.

 

Alergia a insetos

Quando suspeitar de uma alergia a insetos?

Muitas espécies de insetos podem provocar reações alérgicas, na maioria das vezes locais, como é o caso dos mosquitos, melgas, moscas, pulgas e percevejos. No entanto, em alguns doentes alérgicos ao veneno de himenópteros – abelha e vespa – a sua picada pode desencadear reações sistémicas, muito graves. 

Geralmente a picada de insetos provoca apenas a reação local, com dor, comichão, vermelhidão e inchaço, resultante da injeção dos componentes tóxicos do veneno. Nos casos de reação alérgica grave (anafilaxia) os sintomas surgem geralmente alguns minutos após a picada e têm vários graus de gravidade, desde reação cutânea (urticária, angioedema), sintomas digestivos (náuseas, vómitos, diarreia, dor abdominal), respiratórios (pieira, estridor, falta de ar), cardiovasculares (taquicardia, tonturas, confusão, sensação de desmaio), até ao choque anafilático com paragem cardiorrespiratória. O risco é habitualmente maior nas picadas de abelha do que nas de vespa. Os doentes com história de reações sistémicas devem ser portadores de um estojo de emergência com adrenalina para autoadministração. E devem ainda ser referenciados a um Centro de Imunoalergologia, para avaliação e eventual indicação para vacina anti-alérgica com extrato de veneno em ambiente hospitalar.

 

Alergia Alimentar 

Quando suspeitar de uma alergia alimentar?

  • Quando manifesta sintomas, imediatamente ou próximo da ingestão de um alimento, e menos frequente após o contacto ou inalação de vapores da sua cozedura.
  • Quando sintomas idênticos se repetem após a ingestão da mesma comida, ou de alimentos relacionados.
  • Quando manifesta, próximo da ingestão de um alimento, os seguintes indícios isoladamente ou combinados:
  • Pele e mucosas - manchas ou pápulas vermelhas na pele com comichão (urticária), inchaço; comichão na boca;
    Digestivo: náuseas, vómitos, diarreia, cólica abdominal;
    Respiratório: espirros, comichão nos olhos ou lacrimejo, tosse, chiadeira no peito, dificuldade em respirar.
  • Reação alérgica grave (anafilaxia), podendo envolver vários órgãos como a pele, sistema respiratório e digestivo e/ou sintomas cardiovasculares, traduzindo uma queda súbita da pressão arterial, suores, palidez, palpitações e perda de consciência.
  • Após realizar um exercício físico intenso, uma reação alérgica que pode variar desde uma urticária até uma reação alérgica grave.
  • Comichão na boca, com ou sem inchaço dos lábios e/ou língua, imediatamente após a ingestão de alimentos vegetais, como os frutos frescos – síndrome de alergia oral.
  • Vermelhidão e comichão na pele – urticária de contacto.
  • Em crianças, presença de um eczema moderado a grave, particularmente nos primeiros anos de vida.
  • Quando ocorrem, particularmente na criança, sintomas digestivos frequentes como recusa alimentar, vómitos, diarreia, má progressão no peso ou sangue nas fezes.
  • Se tiver o diagnóstico de esofagite eosinofílica.

Os doentes com história de reações alérgicas graves devem ser portadores de um estojo de emergência com adrenalina para autoadministração, em situações de ingestão acidental do(s) alimento(s) a que sejam alérgicos. Recomenda-se que os pacientes com alergia alimentar sejam avaliados em Centros de Imunoalergologia, com experiência nesta área, principalmente pelas particularidades inerentes ao diagnóstico de alergia alimentar de acordo com a idade do doente – particularmente nas crianças – pela complexidade de algumas situações envolvendo reações de reatividade cruzada entre grupos de alimentos, pela possibilidade de em situações mais graves terem que ser efetuados procedimentos específicos de indução de tolerância oral (leite de vaca ou ovo, por exemplo).

 

Alergia ao látex 

Quando suspeitar de uma alergia ao látex?

O látex (borracha) entra na composição de múltiplos produtos, incluindo material de uso médico (luvas, cateteres, algálias, máscaras, drenos, sondas, garrotes, entre outros) e de uso corrente (preservativos, bolas, balões, toucas, brinquedos, chuchas, tetinas...).

Os sintomas de alergia ao látex podem variar desde a reação alérgica local (urticária de contacto), rinite (espirros, prurido nasal, corrimento), conjuntivite (prurido, vermelhidão, lacrimejo), asma (dispneia, pieira e tosse), até episódios de reação alérgica grave ou choque anafilático.

 Deve suspeitar de alergia ao látex quando:

  • Ocorre uma reação alérgica em criança ou adulto submetido a múltiplas cirurgias (ex. espinha bífida e outras malformações congénitas) ou com exposição profissional ao látex (ex. profissionais de saúde, veterinários, cabeleireiros...);
  • Sintomas imediatos após contacto com luvas de látex, preservativos ou outros produtos contendo látex (contacto direto e/ou inalação de partículas dos alergénios de látex);
  • Reações durante procedimentos médicos ou cirúrgicos, tais como tratamentos dentários, exames ginecológicos, ou intervenções intra-operatórias;
  • Reações com alimentos com reatividade cruzada descrita com o látex (síndrome látex-frutos).

Os doentes com história de reações alérgicas graves devem ser portadores de um estojo de emergência com adrenalina para autoadministração, em situações de exposição acidental, ao látex e/ou a alimentos com reatividade cruzada com látex a que sejam alérgicos. Estes pacientes devem ser referenciados a um Centro de Imunoalergologia, para avaliação e eventual indicação para imunoterapia (vacina antialérgica) com extrato de látex em ambiente hospitalar.

 

Alergia medicamentosa 

Quando suspeitar de uma alergia a medicamentos?

  • Quando manifesta, próximo da administração de um certo medicamento, os seguintes sintomas (isoladamente ou combinados): mais frequentemente envolvimento da pele e mucosas, com manchas ou pápulas vermelhas com comichão (urticária, exantema), inchaço (angioedema) ou prurido cutâneo; menos frequentemente queixas do aparelho digestivo, náuseas, vómitos, diarreia ou cólicas abdominais; queixas oculares e/ou respiratórias, comichão nos olhos ou lacrimejo, espirros, tosse, chiadeira no peito ou dificuldade em respirar; ou mesmo sintomas cardiovasculares, traduzindo uma queda súbita da pressão arterial (hipotensão), com tonturas, palpitações, sensação de desmaio ou mesmo choque e perda de consciência.
  • Quando manifesta, imediatamente ou próximo da administração de um certo fármaco, uma reação alérgica grave (anafilaxia). As mais relevantes surgem, na maioria dos casos, nos primeiros 30 minutos a uma hora após a sua administração.

No caso de comprovada alergia a medicamentos os doentes devem ser portadores da informação das substâncias envolvidas, do tipo de reação e alternativas terapêuticas. Não esquecer que o fármaco em causa pode existir sob as mais diversas formas de apresentação. Pela complexidade do diagnóstico recomenda-se que estes indivíduos sejam avaliados em Centros de Imunoalergologia, com experiência na área.

O reconhecimento correto e atempado destes quadros clínicos de ligeiros a muito graves, permite delinear medidas de atuação em termos de diagnóstico e de tratamento, oferecendo alternativas alimentares e medicamentosas, estruturando a atuação de emergência se sintomas muito graves ocorrerem.

No entanto para que o diagnóstico seja possível é importante que os médicos assistentes e os cidadãos afetados, adultos ou crianças, grávidas ou idosos, sejam encaminhados para um especialista em Imunoalergologia.

Há vários medicamentos que podem ser divididos em três grupos:

  • Medicamentos sintomáticos, para o alívio das queixas, incluindo anti-histamínicos para o controlo dos sintomas de alergia a nível do nariz, dos olhos ou da pele, e broncodilatadores para o tratamento das queixas de asma.
  • Medicamentos preventivos, anti-inflamatórios, que permitem combater a alergia e evitar o aparecimento dos sintomas.
  • Vacinas anti-alérgicas. São um tratamento específico, dirigido ao alergénio implicado, que têm uma grande eficácia desde que administradas corretamente e sob vigilância estrita do médico da especialidade de Imunoalergologia. É um método que visa modificar a evolução da doença alérgica. Por exemplo, em pacientes com rinite a pólenes que têm risco aumentado de vir a desenvolver asma, as vacinas poderão prevenir esta evolução.

As doenças alérgicas quando são crónicas, formalmente, não têm cura. Assim sendo pretende-se, como principal objetivo, obter o controlo e assim permitir uma adequada qualidade de vida. Falamos em vacinas anti-alérgicas ou em protocolos de indução de tolerância para medicamentos ou alimentos, os quais, os especialistas têm capacidade para aplicar de acordo com indicações estritas.

De qualquer modo, um doente alérgico pode estar décadas sem sentir qualquer sintoma de alergia, sendo menos provável acontecer quanto mais controlado estiver.

O tratamento que permite o controlo divide-se em várias abordagens, mas baseia-se, primeiro, num diagnóstico correto.

Os pilares fundamentais no controlo da doença são:

  • Educar o doente e da sua família;
  • Evitar os fatores de agravamento;
  • Tratar os episódios agudos ou crises, com utilização de fármacos que aliviam a obstrução dos brônquios;
  • Planear o tratamento preventivo ou de controlo através de vacinas antialérgicas.

 

Evitar os alergénios do ambiente interior

Os ácaros do pó doméstico representam a principal causa de alergia na população portuguesa. As medidas aconselhadas para evitar a sua exposição e a outros contaminantes, são:

  • Manter um arejamento e ventilação adequadas;
  • Evitar alcatifas e carpetes, substituindo-os por pavimentos de linóleo, mosaico ou madeira envernizada;
  • Utilizar colchões recentes, com menos de um ano;
  • Colocar coberturas anti ácaros nos colchões e almofadas;
  • Utilizar lençóis de algodão e edredão sintético;
  • Lavar a roupa da cama e as cobertas plásticas com água a temperaturas superiores a 50ºC;
  • Remover do quarto peluches ou objetos que acumulem pó (ex. livros);
  • Usar aspirador com filtro de alta eficiência (HEPA);
  • Controlar a humidade relativa em valor inferior a 50%;

Nos doentes alérgicos a fungos, as medidas de controlo ambiental são semelhantes. Nos alérgicos a animais domésticos - gato, cão, coelho, hamster, entre outros - será necessário removê-los da habitação.

 

Evitar os alergénios do ambiente exterior

Os pólenes são os alergénios mais importantes do ambiente exterior. Para estes doentes alérgicos a este elemento, cuja época habitual é a primavera, algumas medidas podem ser úteis:

  • Conhecer o boletim polínico da região (disponível no site da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica - www.spaic.pt);
  • Planear viagens de trabalho ou férias elegendo alturas do ano e locais livres dos pólenes para os quais é alérgico;
  • Evitar ir para o campo durante os períodos de grande concentração de pólenes, em especial no período da manhã;
  • Manter as janelas fechadas durante o dia em casa, optando por fazer ventilação ao entardecer;
  • Usar óculos escuros;
  • Viajar de carro com as janelas fechadas, sendo que os motociclistas devem usar capacete integral.

 

Evitar o fumo do tabaco, ativo e passivo

O fumo do tabaco acresce o risco para o aparecimento de asma e outras doenças alérgicas, e nas crianças com esta patologia aumenta do risco para a ocorrência de crises graves, que podem levar ao internamento hospitalar.

Os pais de menores asmáticos deverão ter consciência de que se fumam ou deixam que outros fumem perto dos seus filhos (em casa, no carro…) estão a prejudicar gravemente a saúde das crianças, aumentando de forma significativa a gravidade da doença. É preciso não esquecer que os mais pequenos não pode manifestar verbalmente o seu mal-estar, e que a tosse é habitualmente a sua única forma de expressão.