Consequências da Obesidade para a sua saúde

Prevenção e bem-estar
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"A obesidade é uma doença por direito próprio" (OMS - Organização Mundial de Saúde). Contudo, é também um fator de risco central para muitas outras doenças

A obesidade abdominal, ou obesidade andrógina, isto é, uma distribuição preferencialmente abdominal da gordura, em comparação com uma distribuição mais periférica, é mais nociva e associa-se a um risco maior de aparecimento de:

  • diabetes mellitus tipo 2
  • doença cardíaca coronária
  • hipertensão arterial
  • cancro da mama
  • morte prematura

 

A obesidade abdominal é mais frequente nos homens do que em mulheres pré-menopáusicas. Isto explicará, em parte, a maior prevalência de dislipidemia (triglicéridos e/ou colesterol aumentados) e de doença cardíaca coronária nos homens.

 

Existem alguns problemas ou doenças que afetam os obesos e que são de gravidade menor ou moderada, mas que causam grande redução da qualidade de vida. São exemplos:

  • insuficiência respiratória
  • problemas osteoarticulares crónicos
  • problemas de pele
  • infertilidade

 

Estes problemas são, frequentemente, a razão primária que leva o doente obeso a procurar ajuda especializada no sistema de saúde e a maior parte deles melhora com uma perda de peso ligeira a moderada.

 

Mortalidade e obesidade

Está demonstrado que o risco de morte está aumentado em doentes com obesidade. Existe uma relação linear entre o IMC e o risco relativo de morte. Quanto maior for a duração da obesidade, maior é o risco de morte.

O risco de morte de um indivíduo com IMC ≥ 35 kg/m2, entre os 25 e os 35 anos, é igual a doze vezes o risco de morte de um indivíduo com peso normal, da mesma idade e sexo. A esperança de vida de um homem na década dos 20 com IMC ≥ 45 kg/m2 é de menos 13 anos do que seria se ele tivesse um peso normal.

 

Problemas de saúde e doenças associadas à obesidade

A tabela seguinte revela o risco relativo (isto é, risco para o indivíduo obeso, em relação ao risco para um indivíduo com peso normal) aproximado de certas doenças ou problemas de saúde, associados à obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2):

 

Risco muito aumentado (risco relativo muito superior a 3)

Risco moderadamente aumentado(risco relativo 2-3)

Risco ligeiramente aumentado (risco relativo 1-2)

Diabetes mellitus tipo 2

Doença cardíaca coronária

Cancro (mama na pós-menopausa, endométrio e cólon)

Litíase da vesícula biliar

Hipertensão arterial

Alterações hormonas da reprodução

Dislipidemia

Osteoartrite (joelhos)

Síndrome do ovário poliquístico

Resistência à insulina

Hiperuricemia/gota

Infertilidade

Insuficiência respiratória

 

Lombalgias

Apneia obstrutiva do sono

 

Maior risco de complicações anestésicas

 

 

Defeitos fetais associados a obesidade materna

(fonte: OMS)

 

1. Diabetes mellitus tipo 2 (DMT2)

O risco de um indivíduo obeso desenvolver DMT2 é cerca de 40 vezes maior quando comparado com um indivíduo com peso normal. O risco de DMT2 aumenta continuamente com o aumento do IMC.

Alguns estudos prospetivos demonstram que cerca de 64% dos casos de DMT2 no sexo masculino e 74% no sexo feminino seriam prevenidos se nenhum dos indivíduos estudados tivesse um IMC superior a 25 kg/m2.

Algumas características dos doentes obesos aumentam adicionalmente o risco de DMT2: obesidade na infância ou adolescência, aumento progressivo de peso a partir dos 18 anos e distribuição abdominal da gordura (obesidade abdominal). Vários estudos apontam a obesidade abdominal como um fator de risco independente de per si, mais importante até do que a quantidade total de gordura (IMC) no organismo.

 

2. Litíase da vesícula biliar

A litíase da vesicular biliar tem uma incidência 3 a 4 vezes mais elevada em indivíduos obesos. O risco aumenta com o IMC e é ainda maior na obesidade abdominal. Contudo, o risco está aumentado mesmo em casos moderados de excesso de peso.

A causa parece ser a sobressaturação de bílis com colesterol e a reduzida mobilidade da vesícula biliar, ambas presentes na obesidade.

 

3. Dislipidemia

Na obesidade observa-se, frequentemente, uma elevação dos triglicéridos, redução do colesterol HDL (colesterol "bom" ou "protetor") e elevação do colesterol LDL-apoB (colesterol "mau").

Este perfil lipidémico é mais frequente em caso de distribuição abdominal da gordura (obesidade abdominal) e está relacionado com risco aumentado de doença cardíaca coronária.

 

4. Problemas endócrinos (hormonais)

Os adipócitos (células de gordura) são mais do que simples depósitos de gordura. Eles também funcionam como células endócrinas, produzindo várias hormonas e são destinatários da atuação de muitas hormonas produzidas noutras partes do corpo. Estas propriedades são mais vincadas nos adipócitos dos depósitos abdominais de gordura.

 

As anomalias endócrinas/hormonais comummente associadas à obesidade, sobretudo nos casos de obesidade abdominal, são as seguintes:

  • resistência à insulina e hiperinsulinémia
  • redução dos níveis de progesterona na mulher
  • redução dos níveis de testosterona no homem
  • aumento da produção de cortisol
  • redução dos níveis de hormona de crescimento

 

Resistência à insulina / Síndrome metabólica

A resistência à insulina está claramente associada à obesidade: constitui o principal mecanismo de desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 no obeso, aumenta o risco de doença cardiovascular e parece ser a causa primária da síndrome metabólica. É mais pronunciada nos casos de distribuição abdominal da gordura (obesidade abdominal) e observa-se em todos os indivíduos com obesidade mórbida (IMC ≥ 40 kg/m2).

 

A síndrome metabólica pretende organizar e designar um conjunto de fatores de risco para doença cardiovascular que comummente estão associados à obesidade. Não existe um consenso internacional para a sua definição - na definição proposta pela OMS, a síndrome metabólica caracteriza-se pela presença de duas ou mais das condições seguintes:

  • intolerância à glicose ou diabetes mellitus tipo 2
  • hipertensão arterial
  • hipertrigliceridémia e baixo colesterol HDL
  • resistência à insulina
  • obesidade abdominal

 

Cada componente individual da síndrome metabólica aumenta o risco de doença cardiovascular, mas, em combinação, elas interagem sinergicamente, com aumento adicional do risco.

 

Hormonas envolvidas na função de reprodução

Há uma associação clara entre obesidade, particularmente obesidade abdominal, e disfunção ovulatória, hiperandroginismo e cancro sensível a hormonas (por exemplo: mama).

A obesidade associa-se frequentemente à síndrome do ovário poliquístico, a causa mais frequente de alteração da fertilidade. A perda de peso melhora quase sempre as perturbações hormonais e a função menstrual em mulheres obesas com síndrome do ovário poliquístico.

 

5. Insuficiência respiratória

A obesidade dificulta a respiração e pode causar insuficiência respiratória, com deficiente oxigenação do sangue (hipoxemia). A causa é mecânica: o esforço necessário para respirar está muito aumentado na obesidade em virtude do maior peso e rigidez e menor elasticidade da caixa torácica.

 

6. Apneia obstrutiva do sono

A apneia obstrutiva do sono ocorre em cerca de 80% doentes com obesidade mórbida (IMC ≥ 40 kg/m2), ainda que, frequentemente, não esteja diagnosticada; e em mais de 10% dos indivíduos com IMC ≥ 30 kg/m2. Por outro lado, 65-75% dos indivíduos com apneia obstrutiva do sono são obesos.

Trata-se de uma doença importante, na qual a repetida e permanente interrupção noturna do sono causa:

  • sonolência moderada a grave durante o dia
  • aumento dos níveis de dióxido de carbono no sangue
  • dores de cabeça matinais
  • hipertensão pulmonar
  • pode resultar em insuficiência cardíaca

 

7. Doença cardíaca coronária

Além de se associar a um conjunto de fatores de risco para doença cardiovascular, como sejam a hipertensão arterial, elevação dos níveis de colesterol e diabetes mellitus tipo2, a obesidade é de per si um fator de risco independente para doença cardíaca coronária.

O peso corporal é o terceiro mais importante fator de predição de doença cardíaca coronária, a seguir à idade e dislipidemia,

O risco de doença cardíaca coronária associado à obesidade é maior entre os jovens obesos e em caso de obesidade abdominal.

Também está demonstrado que o risco de mortalidade por doença cardíaca coronária é maior nos doentes com excesso de peso, mesmo para um excesso de peso de apenas 10% acima do peso normal.

 

8. Hipertensão arterial (HTA)

A prevalência de HTA em indivíduos com excesso de peso é 3 vezes mais elevada do que em indivíduos com peso normal. O risco é cerca de 6 vezes mais elevado em indivíduos mais jovens (entre 20 e 44 anos) e aumenta com a duração da obesidade.

 

9. Acidente vascular cerebral (AVC)

O risco de AVC está aumentado nos doentes obesos e depende mais da duração da obesidade do que do peso num determinado momento.

 

10. Problemas osteoarticulares

Os doentes obesos sofrem frequentemente de dores articulares e artroses moderadas a graves, particularmente nas articulações que sofrem mais carga, nomeadamente, joelhos e coluna lombar. A causa mais importante é o stress mecânico relacionado com o excesso de carga a que tais articulações estão sujeitas no doente obeso.

O risco de gota também está aumentado - a causa é a elevação dos níveis de ácido úrico no sangue, frequentes no doente obeso.

Os problemas osteoarticulares são tendencialmente muito incapacitantes e constituem uma das causas mais frequentes de incapacidade laboral nos doentes obesos. São também uma das causas que mais frequentemente levam o doente obeso a recorrer ao médico e constituem uma importante fonte de despesa de saúde para o doente e para a sociedade. Em grande parte dos casos, o sucesso dos tratamentos ortopédicos propostos depende de uma prévia perda de peso consistente e sustentada.

 

11. Cancro

Múltiplos estudos demonstram um aumento da incidência de cancro em doentes com excesso de peso ou obesidade, particularmente de cancros sensíveis a hormonas e de cancro do aparelho gastrintestinal.

O aumento da incidência de cancros sensíveis a hormonas parece estar relacionado com uma distribuição abdominal da gordura (obesidade abdominal).

 

A tabela seguinte lista os tipos de cancro mais frequentemente associados à obesidade:

 

Cancros sensíveis a hormonas

Cancros do aparelho gastrintestinal e urinário

Cancro do endométrio

Cancro do cólon e reto

Cancro do ovário

Cancro da vesícula biliar

Cancro da mama

Cancro do pâncreas

Cancro do colo do útero

Cancro do fígado

Cancro da próstata

Cancro do rim

(fonte: OMS)

 

12. Problemas psicológicos

Uma grande proporção de doentes com excesso de peso ou obesidade apresentam problemas psicológicos moderados a graves, frequentemente incapacitantes e causa de incapacidade laboral. Segundo a OMS, os custos sociais e económicos associados a esta realidade estão muito subestimados.

A obesidade é altamente estigmatizada, quer do ponto de vista da imagem corporal (as pessoas obesas tendem a ver-se a si mesmas como mais feias), quer do ponto de vista das fraquezas e defeitos de carácter que é suposto a obesidade indicar (que não indica!).

Os estereótipos e atitudes negativas dos profissionais de saúde (incluindo médicos, nutricionistas e enfermeiros) face à obesidade são particularmente importantes, apesar de não revelarem senão ignorância!

A consciência que os doentes obesos têm desta atitude negativa gera uma relutância natural em procurar assistência médica, que só contribui para agravar o problema. Com efeito, este estigma explica parcialmente porque é que a obesidade é uma doença sub-diagnosticada e sub-tratada, apesar da sua alta prevalência.

Os mecanismos pelos quais o doente obeso evolui para uma perturbação da sua saúde psíquica são diferentes daqueles que levam à doença física. Os problemas psicológicos associados à obesidade não são uma consequência inevitável da obesidade, mas sim de valores socioculturais pelos quais as pessoas percecionam o seu corpo como "doentio" ou "feio".