Brincar – o que mudou?

Bebés e crianças
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Brincar é das atividades mais importantes da criança. Muito mudou nos hábitos de brincar na sociedade. Damos-lhe alguns conselhos de como brincar com os filhos

As crianças devem brincar entretendo-se com brinquedos, entregando-se a divertimentos sozinhas ou acompanhadas, participando em jogos, assumindo um papel numa situação que se finge ser real, como o brincar às bonecas, aos médicos, aos polícias e ladrões.

 

Todos nós temos consciência que desde os anos 80 a sociedade tem vindo a mudar e que, esta mudança, tem implicado múltiplas alterações na vida de todos nós. Recordo apenas alguns exemplos: no trabalho, com maior ocupação das mães fora de casa; nos apoios familiares, porque atualmente a maioria dos avós trabalha; nos hábitos de consumo, pois efetivamente habituámo-nos a gastar mais e em coisas supérfluas; nas famílias, com o aumento exponencial do número de divórcios; nas cidades, sendo agora impensável que as crianças brinquem na rua.

 

Ao mudar a vida dos adultos, inevitavelmente, a vida das crianças também mudou. E alterou-se até na forma de brincar. Antigamente, os pais entretinham-se, brincavam com os seus filhos, em casa ou no parque, sem questionarem se os estavam a estimular bem. Havia espontaneidade nestes períodos de lazer. Hoje em dia, por um lado, os pais têm mais conhecimentos teóricos sobre a paternidade e, por outro, são bombardeados com informações múltiplas, via internet, revistas e jornais, sobre o desenvolvimento psicomotor da criança. 

Estes dois fatores, leva-os a teorizar muito sobre a ocupação dos tempos livres dos filhos, desde bebés, procurando atividades que os estimulem mais, e melhor, e que lhes desenvolvam mais aptidões. Paralelamente, têm noção de que o trabalho os afasta mais dos filhos, do que devia, e acreditam que se organizarem mais formas de brincar os podem compensar. O mesmo raciocínio é feito pela maioria dos pais separados, situação que neste momento, em Portugal, atinge perto de 60% dos casais.

 

Todavia, se a sociedade mudou imensamente, as regras para um bom desenvolvimento psicomotor infantil mudaram bem menos. Satisfeitas as necessidades físicas básicas, a parte emocional do desenvolvimento psicomotor é alcançada se os bebés sentirem amor, segurança e companhia. Esta bagagem, permite-lhes durante o segundo e terceiro ano de vida, ir adquirindo autonomia e, esta autonomia, permite-lhes serem capazes, e gostarem, de brincar sozinhas. É a fase em que as crianças devem ter prazer de se entreter no quarto, com bonecas ou carrinhos. Mais tarde, gostam de brincar ao faz de conta e de participar em jogos coletivos, porque já sabem aceitar as regras. 

 

Se as atividades lúdicas da criança forem maioritariamente organizadas por outros, a criança não desenvolve autonomia, capacidade indispensável para resistir às adversidades inerentes à vida na idade adulta, nem desenvolve a sua imaginação, fundamental para promover o raciocínio abstrato, tão necessário na aprendizagem escolar.

 

Em suma, sem questionar as vantagens do saber e da modernidade, a minha experiência profissional leva-me a afirmar que com afeto, estabilidade e brincar, a criança pode atingir o seu potencial máximo de desenvolvimento.

 

Olho-te daqui, meu filho, vejo-te brincar com os pequenos cubos que a tua imaginação rapidamente transformou em comboio” Eugénio de Andrade in Vertentes do Olhar