Síndrome de Sjögren: o que é e como se trata?

Doenças crónicas
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Dentro das doenças reumáticas sistémicas, a Síndrome de Sjögren é uma das mais frequentes e caracteriza-se pela secura das mucosas. Conheça-a melhor.

A Síndrome de Sjögren é uma doença crónica que se manifesta por secura das mucosas, sobretudo boca e olhos, acompanhada frequentemente por outras manifestações de inflamação.

É uma das doenças reumáticas sistémicas mais frequentes, estimando-se que afete entre 0,1 e 0,3% da população.

Esta patologia designa-se primária quando ocorre isoladamente e secundária quando surge em doentes com outras doenças reumáticas sistémicas, como a Artrite Reumatoide ou o Lúpus.

 

O que causa a síndrome de Sjögren

A sua causa é desconhecida mas, tal como outras doenças autoimunes, considera-se que resulta da conjugação de fatores ambientais e possíveis desencadeantes virais em indivíduos suscetíveis, levando a uma ativação e proliferação de linfócitos auto-reativos.

 

Como se manifesta

Na Síndrome de Sjögren a inflamação crónica envolve principalmente as glândulas salivares e lacrimais e também as pequenas glândulas presentes na pele, vagina e as vias respiratórias. A consequência dessa inflamação é a secura da boca (xerostomia), olhos (xeroftalmia), pele, vagina e vias respiratórias, que afeta praticamente todos os doentes, em maior ou menor grau.

O processo inflamatório pode também estender-se além das glândulas, originando:

  • Dor articular e artrite;
  • Lesões cutâneas;
  • Envolvimento pulmonar;
  • Envolvimento neurológico;
  • Envolvimento renal;
  • Vasculite.

 

Quem é afetado?

A doença é muito mais frequente no sexo feminino, sobretudo a partir dos 50 anos. No entanto, pode também ocorrer em jovens e, inclusive, em crianças.

 

Como se diagnostica?

O diagnóstico precoce é importante para minimizar o impacto da doença e prevenir complicações. No entanto, o diagnóstico pode ser difícil, uma vez que a evolução é lenta e as manifestações cardinais de xeroftalmia e xerostomia são pouco específicas. De facto, as queixas de secura são comuns na faixa etária em que a doença é mais prevalente, podendo estar relacionadas com fármacos, doenças coexistentes ou com o próprio processo de envelhecimento.

A coexistência de queixas secas, manifestações de inflamação sistémica e/ou alterações laboratoriais são um indicador da provável presença da Síndrome de Sjögren.

O diagnóstico da Síndrome de Sjögren segue vários passos:

  1. Confirmação da presença e intensidade das queixas secas;
  2. Demonstração objetiva da diminuição da função das glândulas através de testes funcionais;
  3. Confirmação da presença de um distúrbio autoimune através de análises específicas (autoanticorpos) ou da biopsia de glândula salivar;
  4. Avaliação da extensão e gravidade da doença através do estudo dos diversos órgãos e sistemas potencialmente afetados;
  5. Estabelecer um prognóstico baseado na estratificação clínico-laboratorial.

Tão importante como a confirmação do diagnóstico é também a sua exclusão. Há muitos doentes que apresentam queixas secas de outra origem, não relacionadas com Síndrome de Sjögren e que precisam ser tranquilizados quanto à ausência desta doença inflamatória.

 

Uma equipa médica multidisciplinar

Devido à presença de inflamação crónica e envolvimento sistémico, o reumatologista é um elemento nuclear no diagnóstico e tratamento desta doença através de uma abordagem multidisciplinar que envolve a Medicina Dentária e a Oftalmologia, para além, claro, do Médico de Família. O trabalho em equipa permite otimizar o tratamento das várias componentes da doença: Sistémica/Reumatológica, Oral/Medicina Dentária e Ocular/Oftalmologia.

 

Em que consiste o tratamento

Infelizmente, não existe ainda uma terapêutica que melhore globalmente todos os aspetos da doença, mas com uma abordagem multidisciplinar é possível melhorar a qualidade de vida do doente e o prognóstico da doença.

O tratamento das queixas secas envolve medidas gerais, incluindo modificações de hábitos e adaptações ambientais, e terapêuticas tópicas específicas, conforme se dirijam à secura da boca ou dos olhos. Alguns medicamentos aumentam os fluxos de lágrima e de saliva e alguns imunossupressores podem ser aplicados na forma de colírio ocular, diminuindo as queixas de olho seco.

No tratamento das manifestações inflamatórias articulares, cutâneas ou de outros órgãos, potencialmente graves, utilizam-se corticosteroides, antipalúdicos ou imunossupressores como o metotrexato ou a azatioprina. Estão em desenvolvimento novos fármacos dirigidos primariamente às manifestações inflamatórias da doença e que, a médio prazo, serão seguramente uma importante arma terapêutica.

 

Fale abertamente com o seu médico assistente

Por último, reforçar que a comunicação e empatia, pilares de uma boa relação médico-doente, são fundamentais no acompanhamento desta doença e na gestão das incertezas e limitações que ainda existem relativas à fisiopatologia e tratamento das suas diversas manifestações.

Publicado a 11/10/2017