Gota:
A gota é uma doença reumática potencialmente grave e incapacitante, que pode ser tratada com alterações da dieta, hábitos saudáveis e medicamentos.
Sabe o que é gota? É uma doença reumática de cariz inflamatório que afeta as articulações. Atinge cerca de 1,3 % da população em Portugal (com tendência para aumentar) e é mais prevalente nos homens do que nas mulheres. Enquanto nos homens a primeira crise acontece normalmente entre os 40 e os 60 anos, na mulher surge habitualmente já depois da menopausa, a partir dos 60 anos. As crises de gota não complicadas são repentinas, requerendo medicação e algumas mudanças no estilo de vida que podem controlar a doença.
O que é a gota?
É uma artrite inflamatória que resulta de hiperuricemia, isto é, do excesso de ácido úrico no sangue e da sua acumulação nas articulações sob a forma de cristais de monourato de sódio. A acumulação de ácido úrico pode ocorrer devido a uma produção excessiva da substância - que surge na digestão de determinados alimentos e bebidas - ou pela incapacidade dos rins em filtrarem e removerem este composto do organismo.
A gota, que provoca episódios de inflamação e dor nas articulações, manifesta-se principalmente no dedo grande do pé, mas pode atingir também os joelhos, tornozelos, punhos, cotovelos, mãos e pés.
Sabia que...
Cerca de 10 % das pessoas com gota produzem ácido úrico em excesso, as restantes 90 % têm dificuldades em eliminar a substância.
Principais fatores de risco da gota
Nos homens, o risco de desenvolver gota começa a aumentar aos 30 anos, enquanto as mulheres têm maior probabilidade de sofrer da doença a partir da menopausa. Paralelamente, existem alguns fatores de risco para sofrer de gota:
- Histórico familiar;
- Obesidade;
- Alimentação rica em purinas (carnes vermelhas, vísceras, marisco);
- Ingestão de bebidas alcoólicas (em particular bebidas brancas e cerveja);
- Toma de fármacos que interferem com a natural excreção de ácido úrico pelo organismo (como os diuréticos tiazídicos);
- Ter colesterol elevado, hipertensão, problemas nos rins ou diabetes;
- Ter osteoartrite;
- Ter mais de 40 anos (homens);
- Mulheres após a menopausa.
Sintomas da gota
Os sintomas da gota variam conforme a fase da doença. O mais comum é a dor aguda e intensa nas articulações, principalmente no dedo grande do pé, mas existem outros sinais:
- Febre;
- Inflamação nas articulações, com calor, rubor e edema (inchaço), particularmente nos membros inferiores (pés, tornozelos, joelhos), mas também nos membros superiores (mãos, punhos e cotovelos);
- Rigidez na zona afetada e dificuldades de movimento;
- Sensibilidade ao toque, bastando calçar uma meia ou tapar com um lençol;
- Problemas renais (como cálculos nos rins e insuficiência renal) e metabólicos (como hipertensão).
Sabia que...
Em metade dos casos, a gota atinge o primeiro dedo do pé. Essa crise chama-se podagra.
Fases da gota
A doença começa por ser assintomática e evolui, principalmente se não houver tratamento, para sintomas incapacitantes, com crises várias vezes por ano:
- Fase inicial: A gota pode não dar quaisquer sintomas;
- Fase intermédia: Com o passar do tempo, surgem as crises inflamatórias, de forma intermitente, com sintomas evidentes numa articulação apenas. As crises podem desaparecer por si só ao fim de alguns dias até duas semanas;
- Fase avançada: A longo prazo, os episódios de gota manifestam-se em diferentes articulações e em simultâneo. Se não houver tratamento, estabelece-se a gota crónica, em que os sintomas são contínuos, sem interrupções, com a presença de tofos (aglomeração de cristais).
É importante ter uma consulta com o médico assistente quando é a primeira vez que os sintomas surgem ou quando os tratamentos não estão a fazer efeito. É aconselhável procurar serviços médicos urgentes caso a dor esteja a piorar, seja acompanhada de febre alta ou arrepios, ou sinais de gravidade como náuseas ou se não conseguir comer.
Diagnóstico da gota
Havendo queixas sugestivas de gota, na consulta o médico questiona os sintomas, a alimentação e os hábitos de consumo de bebidas alcoólicas. É feito um exame físico e, para confirmar o diagnóstico, análises ao sangue, para medir os níveis de ácido úrico. Caso necessário, pode ser aconselhada consulta com médico especialista em Reumatologia, podendo inclusivamente ser necessária colheita de líquido sinovial, retirado da articulação afetada com uma agulha fina, para detetar a acumulação de cristais de ácido úrico. Outros exames que podem ser realizados tanto para diagnóstico como para detetar alterações ou lesões nas articulações são o raio-X, a ecografia, a ressonância magnética ou a tomografia computorizada.
A hiperuricemia, a presença de ácido úrico em excesso, não é o único fator de diagnóstico de gota, uma vez que os resultados podem variar durante uma crise e parecer normais. Por outro lado, nem todas as pessoas com hiperuricemia desenvolvem gota, e nem todas as pessoas com gota manifestam hiperuricemia durante uma crise.
Tratamento da gota
O tratamento da gota depende da fase da doença, na medida em que em determinadas situações as mudanças no estilo de vida, por vezes acompanhadas da utilização de medicamentos de venda livre, podem ser suficientes, enquanto noutros casos é necessário o tratamento com outros fármacos. O controlo da doença inclui habitualmente:
- Redução do consumo de alimentos potenciadores do ácido úrico;
- Abstinência ou redução do consumo de álcool;
- Limitar o consumo de refrigerantes ou sumos de fruta ricos em frutose;
- Perda de peso, de forma equilibrada;
- Estilo de vida saudável, com exercício físico;
- Ingestão abundante de água, exceto quando o médico não recomenda;
- Não fumar;
- Fármacos: na fase aguda, a terapêutica com anti-inflamatórios não esteroides, colchicina ou corticoides visa atenuar os sinais e sintomas. Como tratamento crónico, um fármaco hipouricemiante contribui para baixar o ácido úrico (para níveis abaixo de 6 ou 5 mg/dL, dependendo dos casos), de modo a prevenir crises futuras e evitar a destruição das articulações e a evolução natural para a incapacidade.
Como baixar o ácido úrico rapidamente?
A duração e o efeito de uma crise de gota variam de pessoa para pessoa, quer na fase da doença quer no estilo de vida. Para baixar o ácido úrico mais rapidamente, é recomendado:
- Tomar medicação imediatamente, caso tenha prescrição médica, pois demora a atuar;
- Repousar, principalmente com os membros que têm zonas inflamadas levantados;
- Aplicar gelo envolto numa toalha durante 15 a 20 minutos, várias vezes por dia;
- Beber muita água, a não ser que haja orientação em contrário;
- Evitar bebidas alcoólicas, especialmente cerveja ou bebidas açucaradas;
- Evitar alimentos que podem elevar o ácido úrico;
- Não fazer pressão, que pode agravar a dor;
- Manter os lençóis ou cobertores afastados da zona afetada.
Alimentos a evitar
(por ordem de impacto): Cerveja, licores, refrigerantes, carne de porco ou cordeiro, batata, carne de aves, bivalves, vinho, condimentos, sacarose.
Alimentos a privilegiar
Leite magro, pão integral, cereais de pequeno-almoço, ovos, amendoins, queijo, margarina, fruta não cítrica, banana, frutos secos oleaginosos.
Potenciais consequências da gota
Apesar de não existir cura para a gota, é possível controlar bem a doença, evitando a recorrência dos episódios e a sua gravidade. No entanto, sem tratamento a gota provoca crises mais frequentes, pode causar lesões nas articulações, e levar ao aparecimento de caroços, chamados tofos, nas mãos, nos pés, nos cotovelos ou no calcanhar e tendão de Aquiles. Estes caroços ficam inflamados durante uma crise e provocam desconforto e incapacidade.
Além de ser uma doença bastante incapacitante, principalmente durante as crises, que podem durar até dez dias, a gota é também um fator de risco para artrite crónica, para o aparecimento de pedras nos rins, e para o desenvolvimento ou agravamento de doenças cardiovasculares.
Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, 2025
Associação Portuguesa de Nutrição, 2025
BMJ Best Practice, 2025
Cleveland Clinic, 2025
Mayo Clinic, 2025
MGFamiliar, 2025
NHS, 2025
Portal da Diálise, 2017
Reuma Census, 2017
Sociedade Portuguesa de Reumatologia, 2017
Atualizado a 05/03/2026