Tendinopatia do Tendão de Aquiles

O que é?
Sintomas
Causas
Diagnóstico
Tratamento
Prevenção

O tendão de Aquiles é o mais forte do corpo humano, conseguindo suportar até 12,5 vezes o peso corporal. Localiza-se na região traseira do tornozelo e liga os músculos gémeos da perna ao osso do calcanhar.

Quando os músculos gémeos se contraem fazem com que o tendão de Aquiles puxe o pé para baixo. Portanto, o músculo e o tendão “trabalham” sempre que se dá um passo para propulsionar o corpo para cima e para frente. 

Este tendão é composto sobretudo por fibras de colágeno, tendo uma área mais vulnerável localizada entre 2 a 6 cm no calcanhar, concentrando o stress nesta área, e sendo este o local mais frequente de rotura.

Na região onde insere no calcanhar, este tendão é protegido por uma bursa (almofada) entre o osso e o calcâneo e também está coberto por uma estrutura que nutre o tendão (paratendão).

A lesão do tendão de Aquiles ocorre mais nos homens, sobretudo na faixa etária entre os 30-50 anos, nos adeptos de exercícios físicos regulares, principalmente relacionados com mudanças bruscas de velocidade, mas também nos desportistas ocasionais e em pessoas sem qualquer atividade desportiva.

Em cerca de 25% o diagnóstico inicial não é obtido e, quando ocorre lesão de um lado, a hipótese de lesão no outro lado é de 20% a 30%.

A tendinopatia de Aquiles pode ocorrer fora da zona de inserção, na região média do tendão, ou na zona de inserção do tendão no calcanhar.

Esta lesão manifesta-se por dor à palpação ou ao toque no tendão. Essa dor surge gradualmente durante dias ou meses e agrava-se durante a atividade física, melhorando com o repouso. A dor é mais intensa em atividades como subir escadas ou rampas inclinadas ou quando se aumenta a velocidade durante a corrida. 

Pode-se verificar a presença de uma crepitação do tendão durante o movimento do pé e uma sensação de rigidez nos primeiros passos da manhã (ex. ao sair da cama) ou após períodos de repouso. Por vezes, é visível um inchaço na zona do tendão.

Pode ser percetível um espessamento do tendão ou a presença de um esporão ósseo.

De um modo geral, a mobilidade do tornozelo fica limitada, sobretudo no movimento de flexão. 

Uma tendinopatia prolongada pode enfraquecer o tendão, aumentando o risco de rotura, que se associa a um estalido audível e que habitualmente requer cirurgia.

Esta lesão não resulta habitualmente de um trauma específico mas sim de um stress repetido exercido sobre o tendão, o que acontece quando se ultrapassam os limites de resistência do corpo ou quando ocorre um aumento súbito da intensidade do treino.

As causas mais comuns para esta lesão são alterações da posição do pé, como o abatimento da região interna do pé durante a marcha ou andar, que aumenta a exigência sobre o tendão de Aquiles; o encurtamento muscular dos gémeos, que resulta numa diminuição da capacidade de movimento do pé; o uso de calçado inadequado ou desconfortável para a prática desportiva; alterações bruscas das rotinas de treino ou da atividade desportiva, com exercícios que colocam demasiada tensão no tendão, como por exemplo, corridas explosivas ou saltos repetitivos.

A presença de esporões ósseos, que correspondem a um crescimento excessivo de osso no local de inserção do tendão de Aquiles, pode causar atrito sobre o tendão e lesá-lo.

Ao longo da idade a estrutura deste tendão vai enfraquecendo, aumentando o risco de lesão.

Como já referido, os homens de meia-idade são mais suscetíveis a esta lesão.

A presença de “pé chato” ou de obesidade aumentam a tensão sobre o tendão de Aquiles.

A diabetes, a hipertensão arterial, o uso de antibióticos como as fluoroquinolonas, são também fatores de risco para este tipo de lesão.

Para lá do exame clínico, a radiografia permite identificar calcificações do tendão ou alterações dos ossos adjacentes.

A ressonância magnética não é essencial mas é útil no planeamento da cirurgia.

A ecografia pode também ser importante na avaliação dos tecidos moles

Nas fases iniciais, o gelo é útil. De um modo geral, o gelo deve ser aplicado durante períodos de 20 minutos.

Os medicamentos anti-inflamatórios permitem controlar a dor e o inchaço. As injeções de corticóides no tendão raramente estão indicadas porque aumentam o risco de rotura.

Em alguns casos pode estar indicada a colocação de um dispositivo no interior do calçado, que promova a elevação do calcanhar, diminuindo a tensão no tendão. Esta opção pode ser adequada nas fases iniciais, mas não é uma solução de longo prazo.

O repouso é essencial, devendo serem evitadas todas as atividades que coloquem tensão sobre o tendão. Desportos de baixo impacto, como a bicicleta ou a natação são possíveis e permitem manter a atividade física.

Existem exercícios específicos que ajudam a reforçar os gémeos e a reduzir a tensão sobre o tendão de Aquiles e que serão prescritos sempre que o médico os considerar apropriados.

Mesmo com um tratamento iniciado precocemente, a dor pode durar 3 meses ou mais. Se o tratamento for iniciado mais tardiamente, os resultados poderão surgir apenas após 6 meses.

A fisioterapia é parte integrante do tratamento, bem como o uso de calçado adequado que reduza o esforço sobre o tendão.

Se estas medidas não forem eficazes ou se a dor não melhora ao fim de 6 meses, a cirurgia pode estar indicada. O tipo de cirurgia dependerá do local da lesão e da sua gravidade. As complicações são raras.

De um modo geral, a recuperação é boa, sendo importante a fisioterapia nos meses seguintes.

É possível reduzir o risco de ocorrência desta lesão mediante as seguintes medidas:

Início gradual de qualquer atividade física, com aumento progressivo da duração e intensidade do treino 

As atividades que implicam muita tensão sobre os tendões, como correr em plano inclinado, devem ser evitadas.

Sempre que ocorrer dor, parar de imediato a atividade que causou essa dor.

Utilização de calçado adequado a cada modalidade e ao formato do pé.

Realizar diariamente exercícios de estiramento dos tendões de Aquiles, de manhã e antes e depois de uma atividade física.

A manutenção de níveis adequados de força muscular a nível dos gémeos ajuda o tendão de Aquiles a suportar melhor o stress associado ao exercício.

É útil realizar atividades diferentes, alternando desportos de elevado impacto, como a corrida e o salto, com atividades de impacto reduzido, como o ciclismo e a natação.

Fontes

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