Terapia da fala: dicas para aplicar em casa

Face ao período que vivemos e ao pedido para ficar em casa, com as nossas crianças recolhidas e resguardadas, temos todos de nos desdobrar em diferentes papéis

Em casa, para além de profissionais, somos pais, amigos, educadores, professores, explicadores e, porque não terapeutas da fala?

Agora que já nos começamos a habituar a esta nova rotina e a assumir a realidade de forma mais serena e controlada, seguem-se algumas estratégias/dicas de estimulação da linguagem, memória auditiva, comunicação, leitura e escrita no ambiente mais caseiro, que facilmente conseguirão realizar no dia-a-dia com as vossas crianças, estejam elas com ou sem intervenção à distância em terapia da fala.

 

No quarto das crianças

  • Leitura de livros de histórias ao deitar: Lêem os pais, lêem  os pais com os filhos ou lêem só as crianças, mas no fim é a vez destas recontarem a história.
  • Ouvir músicas preferidas: Escolher as mais calmas para o deitar e as mais mexidas para ajudar a acordar e pedir à criança para ficar atenta à letra, melodia e ritmo.
  • Hora do vestir/despir: Aproveitar estes momentos para nomear com a criança as peças de roupa e/ou pedir para selecionar e sequenciar a roupa que irá vestir.

 

Na cozinha

  • Confeção das refeições preferidas: Definir o menu, listar os ingredientes, distribuir tarefas, ler e executar em conjunto as diferentes etapas passo a passo.
  • Pôr/levantar a mesa: Esta é uma tarefa a implementar logo desde cedo, onde a criança diz os utensílios que precisa, o número de exemplares e os dispõe e organiza sobre a mesa, precisando de acordo com a idade de mais ou menos supervisão.
  • Fazer a lista das compras do supermercado: Pedir à criança ajuda na construção da lista de compras, dividindo por diferentes secções, tais como frutaria, padaria, talho, onde a criança pode dar sugestões e escrever a listagem.



 

Na sala

  • Jogar ao stop: Jogo que tanto as crianças como os adultos adoram jogar, os pais podem ajudar a construir as grelhas e discutir quais as categorias a contemplar tendo em conta a idade e o nível de conhecimento e, para cada letra do abecedário, evocar palavras, preencher coluna a coluna e somar os pontos no final, favorecendo a criatividade, rapidez de raciocínio, capacidade de evocação, escrita, cálculo e ampliando o seu vocabulário.
  • Jogo do telefone estragado: Definem quem será o primeiro, esse terá de dizer um “segredo”, palavra ou frase dependendo do nível da dificuldade, ao ouvido do próximo participante mas sem nunca repetir, e assim por diante até chegar ao último participante que diz o “segredo” em voz alta, que geralmente pouco tem a ver com a mensagem inicial e que gera muitas gargalhadas, desenvolvendo a capacidade de audição, concentração, oralidade e memória.
  • Jogar às cartas: São tantos os jogos de cartas que existem, a bisca, o peixinho, as copas, o presidente, o uno. Ensine à criança como se joga, explique as regras, simulem um jogo para demonstrar como se joga e joguem muito.
  • Jogos de mímica: Cada um pensa numa coisa e tenta reproduzi-la por gestos e o outro tem de adivinhar, de forma isolada ou em equipa, e ganha quem acertar mais vezes.
  • Ver uma série ou um filme: Os momentos de cinema em casa com direito a pipocas e tudo, assumem-se como bons momentos para focar a atenção, a concentração e construir e compreender o enredo. No fim podem discutir o que visualizaram, quais as partes que mais gostaram e, no caso das séries, podem até fazer suposições do que vai acontecer no próximo episódio ou recapitular o episódio anterior antes de verem um novo.
  • Hora do espetáculo: Fazer teatro, dar concertos, dançar ou demonstrar qualquer que seja o talento.  A criança assume diferentes papéis, organiza e planeia a atuação, adequa o vestuário, é confrontada com o público e, com o pai ou mãe a fazer de apresentador, chamando-a ao palco e fazendo uma breve entrevista no início e no fim do espetáculo, onde terá de organizar o seu discurso e responder às questões colocadas.

 

No escritório

  • Fazer e pintar um desenho livre ou temático: Podem fazê-lo sozinhas ou com a ajuda dos pais. Os pais podem escolher um tema ou deixar sair o que a inspiração do momento decidir. No fim pode-se explorar com as crianças o resultado final, assinar, datar e expô-lo à vista de todos.
  • Escutar e escrever letras das suas músicas preferidas: Para além da atenção e concentração, memória auditiva, aqui a criança pratica de forma mais prazerosa as competências de leitura e escrita.
  • Escrever um email a um amigo e/ou familiar: Substitui-se a carta pelos emails, aproveita-se para saber dos que querem bem e partilhar com estes como estão e o que têm feito. Se a criança ainda não domina a escrita então pode pensar no que quer dizer e os pais escrevem por ela.
  • Construir Quantos queres?: Ensine à criança como se faz a dobragem pois da próxima vez já será ela a fazê-la. As imagens podem ser livres ou mais dirigidas, como por exemplo imagens de determinada categoria semântica, ou cujo nome tenha o som que a criança articula com dificuldade, ou cujo nome a criança tenha dificuldade a escrever.Depois é a vez da criança ir fazer o jogo aos diferentes membros da família.

 

No pátio / na garagem

  • Jogo da macaca: Para além da atividade física associada, é um ótimo jogo de equipa e de interação. Estimula a concentração e atenção, pois a criança terá de esperar pela sua vez e terá de respeitar o tempo e as capacidades do outro. Ao mesmo tempo que jogam, podem cantar uma música ou dizer uma lengalenga.

 

No jardim / à janela

  • Fechar os olhos e escutar os barulhos em redor: Peça à criança para dizer o que ouve, chame-a à atenção para determinado som. Relacionem em conjunto os diferentes sons com o seu significado.
  • Sentir o sol na cara, fechar os olhos e viajar: Peça à criança para escolher o destino de viagem e explorem essa viagem, conversando e imaginando o que estão a fazer, o que vos rodeia, como se sentem e quem está convosco.
  • Fazer um piquenique em casa: Definir o menu em conjunto e os utensílios necessários Organizar tudo dentro da cesta e só falta estender a toalha no chão e partilhar a refeição.
  • Caça ao Tesouro em casa: Previamente devem traçar o itinerário e definir quais os tesouros a serem encontrados. As pistas podem ser orais ou escritas e, se for necessário, podem orientar com pistas para ajudar no caso de surgirem dificuldades, deste modo a criança ouve e segue instruções, interage, compete e fica contente quando encontra o tesouro.



 

Na casa de banho

  • Hora do duche: Enquanto se lavam podem nomear com elas as diferentes partes do corpo. Consoante a sua autonomia a criança pode ir seguindo a vossa orientação verbal.
  • Treino ao espelho: Com esta ajuda visual a criança pode fazer as “caretas” que a terapeuta da fala ensinou para trabalhar a musculatura orofacial e treinar as palavras mais difíceis controlando visualmente a postura da língua. Podem ainda treinar lengalengas e trava línguas. 

 

As estratégias mencionadas são algumas das atividades para desenvolver com as suas crianças, tenham elas ou não necessidades de intervenção em terapia da fala. É só adaptar à sua faixa etária, dar asas à imaginação e envolver toda a família!