Como lidar com a doença bipolar

Cérebro e saúde mental
Doenças crónicas
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Caracterizada por alterações do humor, esta condição afeta cerca de 2 % da população portuguesa. Saiba como gerir a perturbação bipolar e ter qualidade de vida.

Em Portugal, cerca de 4 % da população sofre de uma doença mental grave, com consequências diretas na esperança média de vida. No conjunto destas doenças, destaca-se a perturbação bipolar, que afeta mais de 200 mil pessoas, com igual prevalência em ambos os sexos, e que corresponde a aproximadamente 2 % da população. Anteriormente designada por doença maníaco-depressiva, provoca alterações acentuadas de humor, sendo por isso capaz de causar problemas na vida pessoal, familiar, social e profissional, sobretudo quando não está diagnosticada ou tratada.

O transtorno ou perturbação bipolar é uma condição de difícil diagnóstico que se pode manifestar de diversas formas, mas que pode ser controlada através de tratamentos psicológicos, psiquiátricos ou farmacológicos permitindo uma vida estável e com boa qualidade. Por isso, é essencial combater o estigma associado à doença mental e reforçar a ideia de que, com acompanhamento adequado, é possível estudar, trabalhar, ter relações afetivas e constituir família.

 

Tipos de doença bipolar

A doença bipolar pode ser definida através de dois tipos distintos de crise que podem surgir, cada uma com os seus sintomas específicos:

  1. Mania: Estado caracterizado por humor elevado e expansivo, eufórico ou irritável;
  2. Depressão: Estado caracterizado por tristeza, apatia e inquietação.

 

O que é uma pessoa com perturbação bipolar?

É comum usar‑se a palavra “bipolar” para falar da pessoa e não apenas da condição. No entanto, é importante recordar que se trata, antes de mais, de uma pessoa que vive com doença bipolar, com a sua história, relações e projetos, e que não se resume ao diagnóstico nem às crises de humor.
Uma pessoa com perturbação bipolar, principalmente quando não está diagnosticada ou sem tratamento, pode passar por crises em que o seu estado alterna entre episódios de mania ou depressão. Essa alternância pode durar alguns dias (ciclos rápidos) ou meses e ter diferentes níveis de gravidade, consoante os sintomas sejam mais ou menos acentuados. Podem igualmente verificar-se crises mistas, nas quais coexistem os sintomas de mania e de depressão. Também podem existir períodos de estabilidade longos, de dias até anos, nos quais a pessoa se sente bem e funcional nas suas atividades diárias familiares e profissionais.

 

Quais são os fatores de risco?

Não são, ao certo, conhecidas as causas do transtorno bipolar. No entanto, existem alguns fatores que os especialistas consideram de risco para o seu desenvolvimento:

  • Fatores genéticos e biológicos, como historial familiar de perturbação bipolar ou outras perturbações do humor;
  • Exposição continuada a situações de stress intenso;
  • Traumas significativos, como a morte de uma pessoa próxima, doença grave ou divórcio;
  • Uso de substâncias prejudiciais à saúde do cérebro, como álcool ou drogas;
  • Alterações em determinadas estruturas ou no funcionamento do cérebro.

Por outro lado, é na adolescência ou no início da idade adulta que, na maior parte dos casos, a perturbação bipolar se começa a manifestar, embora possa também ocorrer já na fase adulta. Cerca de metade dos casos surge antes dos 25 anos.

 

Sinais de alarme

Todas as pessoas experimentam variações de humor e, como tal, os sintomas da doença bipolar são frequentemente ignorados, podendo levar bastante tempo até existir um diagnóstico. No entanto, há sinais aos quais se deve prestar atenção e que podem indicar perturbação bipolar, tanto numa fase de mania como de depressão:

  • Variações emocionais profundas;
  • Mudanças acentuadas na autoestima;
  • Longos períodos de energia e bom humor (hipomania);
  • Fala rápida, com mudanças frequentes de assunto;
  • Reação excessiva a estímulos;
  • Incapacidade de terminar tarefas;
  • Preocupação intensa com o fracasso, ou, pelo contrário, tendência para culpar sempre os outros;
  • Gastos elevados, ofertas exageradas e dívidas;
  • Esquecimentos, dificuldade de concentração e em tomar decisões;
  • Perda de interesse pelo trabalho, por hobbies ou pelas pessoas;
  • Inquietação e irritabilidade extrema;
  • Diminuição ou aumento do desejo sexual;
  • Alterações no apetite ou no peso;
  • Alterações no sono;
  • Choro fácil;
  • Delírios e perda de noção da realidade;
  • Isolamento social;
  • Consumo excessivo de álcool e outras substâncias;
  • Incapacidade em reconhecer o transtorno e recusa de tratamento.

Em algumas pessoas, estes sintomas são mais prováveis em certas alturas do ano, tornando-se mais fácil prever eventuais futuras crises.

 

Como funciona a mente de uma pessoa com transtorno bipolar?

A perturbação bipolar é uma condição complexa, que varia de pessoa para pessoa, quer nas causas quer nas consequências e nos padrões de sintomas. No entanto, as alterações de humor e a incapacidade de separação entre a ficção e a realidade são comuns às pessoas que sofrem de transtorno bipolar.

  • As alterações de humor são intensas, havendo uma grande discrepância entre os períodos de estabilidade, de mania ou de depressão, as quais não ocorrem a todo o momento - são períodos de dias, semanas ou meses em que uma das fases está mais presente;
  • Podem existir distorções cognitivas, sendo marcadas por períodos de pensamentos maniqueístas (preto ou branco), conclusões demasiado rápidas ou ideias catastrofistas;
  • O facto de as alterações de humor não serem imediatas, em segundos ou minutos, significa que a pessoa com perturbação bipolar não manifesta, em regra, um comportamento imprevisível ou perigoso. Trata-se, isso sim, de atingirem estados emocionais extremos que se vão instalando;
  • A impulsividade é, por vezes, uma característica e pode traduzir‑se em gastos excessivos, comportamentos sexuais de risco ou abuso de substâncias;
  • Apesar de alguém poder parecer completamente diferente quando está eufórica ou depressiva, a doença bipolar não é bastante diferente do transtorno dissociativo de identidade, em que diferentes personalidades parecem representar diferentes identidades.

 

Uma pessoa com transtorno bipolar tem consciência da doença?

Muitas pessoas diagnosticadas com doença bipolar lidam mal com a situação e podem mesmo esconder o problema. É importante haver reconhecimento sobre o problema e dar apoio para também haver uma aceitação do mesmo e da forma de o tratar.

O tratamento ajuda a prevenir crises de mania ou de depressão, ou a reduzir os seus efeitos, na medida que é nesses momentos que as pessoas com transtorno bipolar se afastam um pouco da realidade e perdem a noção da mesma. As fases de depressão são mais graves, pois há frequentemente pensamentos suicidas - e, por vezes, tentativas de suicídio - e o agravamento pode levar a que surjam também nas fases de mania. Em situações graves de alucinação ou delírio, a pessoa pode necessitar de internamento para a sua proteção e de outros.
A informação sobre a perturbação, o apoio da família e a relação de confiança com os profissionais de saúde ajudam a aumentar a consciência da própria condição. Com o tempo, muitas pessoas aprendem a reconhecer sinais de alarme, como alterações de sono, aumento de irritabilidade ou gastos impulsivos, e a pedir ajuda mais cedo.

 

Como lidar com a doença bipolar

A perturbação bipolar não tem cura, mas pode ser tratada e controlada. Em caso de suspeita de que pode ter transtorno bipolar, deve consultar um médico psiquiatra. Consoante o caso, poderão ser receitados medicamentos antidepressivos, antipsicóticos ou estabilizadores do humor, capazes de reduzir a probabilidade de novas crises. Poderá ainda ser-lhe definido um plano de tratamento a longo prazo, que passará também pela identificação e correção de comportamentos passíveis de desencadear crises, a integração em grupos de apoio e/ou psicoterapia individual. A psicoeducação - isto é, aprender mais sobre a condição e o seu tratamento - ajuda a pessoa e a família a participarem ativamente no processo.

 

Atenção!

Aprender a viver com este transtorno é não se deixar dominar por ele: manter o tratamento, respeitar rotinas de sono, alimentação e exercício, evitar álcool e drogas e pedir ajuda sempre que necessário, evitando que a doença bipolar preencha os pensamentos no dia a dia ou afete as atividades.

 

Quais as implicações da doença bipolar na gravidez?

Não existe uma contraindicação para uma mulher com perturbação bipolar engravidar. Muitas mulheres referem uma diminuição nos sintomas ou na ocorrência de crises, tendo a gravidez um papel protetor ao aumentar o bem-estar. No entanto, é importante haver um acompanhamento constante por parte do psiquiatra e do obstetra, para evitar o aparecimento de sintomas e avaliar o tratamento.

A gravidez de uma mulher com perturbação bipolar deve ser planeada. Deste modo, durante a gestação, a medicação é frequentemente ajustada pelo psiquiatra, mas não interrompida. O mesmo se aplica em caso de gravidez acidental: a mulher deve procurar o seu psiquiatra e não parar a medicação sem orientação.

É importante também reconhecer o aparecimento de sintomas de doença bipolar, que podem ser confundidos com sinais normais da gravidez, como fadiga, choro fácil ou alterações do apetite. Se forem muito intensos ou persistirem, devem ser avaliados.

Com a aproximação do parto, o acompanhamento médico deve ser mais regular e, principalmente, após o nascimento do bebé. A mulher com uma perturbação bipolar tem maior risco de sofrer um episódio maníaco ou depressivo, e há também maior possibilidade de depressão pós-parto, caso os normais sintomas depressivos após o parto não desapareçam nas primeiras semanas.

 

Uma pessoa com transtorno bipolar pode viver sozinha?

A doença bipolar pode ser controlada de diversas formas, permitindo uma vida perfeitamente normal, com boa qualidade. O tratamento adequado - através de diferentes fármacos e outras terapias - é essencial para evitar crises e outros riscos associados à condição, mas não impossibilita a vida autónoma. Pode também ser ajustado consoante a evolução da doença ou mudanças na resposta à medicação.

Para viver bem com transtorno bipolar é fundamental não parar o tratamento, ter uma boa rede familiar e de amigos, e procurar suporte em grupos de apoio ou fóruns da comunidade. É importante também combater o estigma da doença mental e promover a consciencialização das pessoas que estão próximas, para que possam saber lidar com a pessoa com perturbação bipolar e ajudá-la, e ainda da sociedade em geral, para haver um maior reconhecimento da condição e dos seus sinais, para permitir que os diagnósticos sejam mais precoces e mais pessoas tenham o apoio de que precisam.

Fontes:

Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares

Cleveland Clinic

Mayo Clinic

Medjournal

NHS

Ordem dos Psicólogos Portugueses

Revive Research Institute

Serviço Nacional de Saúde

Atualizado a 07/05/2026

Publicado a 21/01/2016