Gastrenterologia: a importância dos exames de diagnóstico

Se é verdade que a pandemia levou a uma redução da realização dos exames endoscópicos, em parte devido ao receio das pessoas em se deslocarem às unidades de saúde, também favoreceu outros deslizes, particularmente na alimentação. “Pela minha experiência, as pessoas aumentaram entre dois a três quilos durante o confinamento”, diz Ricardo Gorjão, Coordenador de Gastrenterologia no Hospital CUF Descobertas. “Isto deveu-se não só ao sedentarismo como ao facto de estarem em casa com facilidade de acesso à comida e aos pequenos prazeres.”

Não obstante, há que lembrar que uma alimentação saudável e variada está na base de uma boa saúde gastrointestinal e é uma peça-chave para a resistência à doença. “Hoje em dia, há uma propensão para as listas de alimentos proibidos. No entanto, exceto em situações patológicas, o que tem de imperar é o bom senso. Todas as pessoas sabem o que é uma boa refeição: deve ser variada, equilibrada, e não nos devemos esquecer que vivemos em Portugal e que a dieta mediterrânica é excelente.”

A par de um bom estilo de vida, o acompanhamento médico regular também é importante para a manutenção da saúde digestiva. As estatísticas revelam, contudo, que ao longo do último ano foram muitas as pessoas que deixaram de ser seguidas nesta especialidade. “Em 2020, só no meu serviço, houve dois meses em que o número de exames realizados diminuiu em cerca de 90%. Seguiu-se um período em que começámos novamente a receber doentes, mas em novembro voltou a dar-se uma queda abrupta”, explica Ricardo Gorjão. “Os primeiros meses de 2021 têm sido de recuperação, mas é preciso transmitir às pessoas que é seguro ir ao hospital. Desde que se cumpram as regras, é perfeitamente possível e aconselhável continuar a ir às consultas e fazer exames endoscópicos e outros. Aliás, se há lugar onde hoje me sinto seguro é no Hospital CUF Descobertas.”

Ricardo Gorjão

"Desde que se cumpram as regras, é perfeitamente possível e aconselhável continuar a ir às consultas e fazer exames endoscópicos e outros."

As pessoas podem, por isso, sentir-se confortáveis em consultar um especialista sempre que lhes surjam sintomas “de novo”. “Uma queixa não precisa de ter um ano. Basta ser uma queixa que o doente não tinha e que, passadas uma ou duas semanas, se continue a manifestar”, diz Ricardo Gorjão. A indicação do médico assistente ou a existência de sinais de alarme também devem motivar o agendamento de uma Consulta de Gastrenterologia. “Sangue nas fezes, vómitos de repetição, falta de apetite ou emagrecimento não expectável são indicações para uma observação imediata.”

Na origem da maior parte das consultas desta especialidade estão problemas como o refluxo gastroesofágico, a dispepsia (dificuldade na digestão) ou a síndrome do intestino irritável. “Há doentes que, depois de estabilizados, são capazes de ir gerindo a doença; outros, por ansiedade ou recorrência persistente dos sintomas, requerem um acompanhamento mais regular. E ainda há aqueles que, aparentando um quadro funcional, podem suscitar dúvidas ao médico e devem ser acompanhados.” É neste último caso que a interrupção do tratamento ou a ausência de realização de consultas regulares comporta maiores riscos.

“Aquilo que parece ser, por exemplo, uma síndrome do intestino irritável pode, na verdade, ser uma doença inflamatória, um tumor ou outro problema. Se o médico sugere um determinado acompanhamento é porque tem as suas razões, seguindo um raciocínio clínico.” Além disso, no caso das doenças funcionais, existe o risco de que a doença regrida. “Se a pessoa abandona a medicação ou os cuidados que tem para controlar os sintomas, o quadro regride, voltando à forma inicial.”

Mais uma vez, é essencial detetar as patologias tão atempadamente quanto possível. “Principalmente nas doenças orgânicas – doença inflamatória, tumores doença celíaca, entre outras –, quanto mais precoce for o diagnóstico, melhor será a evolução. E é nisso que a pandemia me preocupa: faz com que muitas patologias não sejam diagnosticadas a tempo.”

Ricardo Gorjão reconhece que a COVID-19 permanecerá entre nós no futuro próximo mas que isso não faz com que o cancro colorretal, o cancro do pâncreas ou o cancro gástrico deixem de existir. E lembra que a taxa de letalidade do cancro colorretal é de cerca de 50%, mas que pode baixar significativamente com um diagnóstico precoce.

Quando fazer exames gastrointestinais?

A prevenção de doenças gastrointestinais passa por cumprir um plano de rastreios e exames de diagnóstico. No entanto, de acordo com Ricardo Gorjão, “o rastreio anual de base populacional que faz a busca do sangue oculto nas fezes apenas ajuda a descobrir lesões do cólon numa fase em que estas já sangram”, o que leva o Coordenador de Gastrenterologia do Hospital CUF Descobertas a recomendar outros métodos para um diagnóstico precoce, como a colonoscopia e a endoscopia alta, exames que, hoje em dia, “podem ser feitos com apoio anestésico, com toda a segurança e comodidade”.

Colonoscopia
Endoscopia alta

Deve ser realizada na presença de sinais como:

  • Diarreia relevante
  • Alterações do trânsito intestinal de instalação recente
  • Perda de peso associada a alteração do trânsito intestinal
  • Suspeita de doença inflamatória
  • Perda de sangue nas fezes

 

Ou perante histórico familiar de cancro gastrointestinal:

  • Idade a definir consoante a história familiar de cancro colorretal

 

Ou, ainda, na ausência de sintomas ou de histórico familiar relevante:

  • A partir dos 45-50 anos

Deve ser realizada na presença de queixas persistentes tais como, entre outros:

  • Sintomas dispépticos (má digestão)
  • Dores de estômago
  • Refuxo gastroesofágico persistente

Fotografia © Ricardo Lopes 4SEE

Publicado a 16/06/2021