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 # Consequências da Obesidade para a sua saúde

 

 

 



 

 

Prevenção e bem-estar

 

 10 mins leitura 

Escrito por:

 [ ![Carlos Vaz](/sites/portalcuf/files/styles/professional_resume/public/node/33945.png?itok=9WIUXmJn) 

Carlos Vaz , 

Cirurgião Geral

 

 

 ](/medicos/carlos-vaz)

 

 

 

 

"A obesidade é uma doença por direito próprio" (OMS - Organização Mundial de Saúde). Contudo, é também um fator de risco central para muitas outras doenças



A obesidade abdominal, ou obesidade andrógina, isto é, uma distribuição preferencialmente abdominal da gordura, em comparação com uma distribuição mais periférica, é mais nociva e associa-se a um risco maior de aparecimento de:

- diabetes mellitus tipo 2
- doença cardíaca coronária
- hipertensão arterial
- cancro da mama
- morte prematura

A obesidade abdominal é mais frequente nos homens do que em mulheres pré-menopáusicas. Isto explicará, em parte, a maior prevalência de dislipidemia (triglicéridos e/ou colesterol aumentados) e de doença cardíaca coronária nos homens.

Existem alguns problemas ou doenças que afetam os obesos e que são de gravidade menor ou moderada, mas que causam grande redução da qualidade de vida. São exemplos:

- insuficiência respiratória
- problemas osteoarticulares crónicos
- problemas de pele
- infertilidade

Estes problemas são, frequentemente, a razão primária que leva o doente obeso a procurar ajuda especializada no sistema de saúde e a maior parte deles melhora com uma perda de peso ligeira a moderada.

### Mortalidade e obesidade

Está demonstrado que o risco de morte está aumentado em doentes com obesidade. Existe uma relação linear entre o IMC e o risco relativo de morte. Quanto maior for a duração da obesidade, maior é o risco de morte.

O risco de morte de um indivíduo com IMC ≥ 35 kg/m2, entre os 25 e os 35 anos, é igual a doze vezes o risco de morte de um indivíduo com peso normal, da mesma idade e sexo. A esperança de vida de um homem na década dos 20 com IMC ≥ 45 kg/m2 é de menos 13 anos do que seria se ele tivesse um peso normal.

### Problemas de saúde e doenças associadas à obesidade

A tabela seguinte revela o risco relativo (isto é, risco para o indivíduo obeso, em relação ao risco para um indivíduo com peso normal) aproximado de certas doenças ou problemas de saúde, associados à obesidade (IMC ≥ 30 kg/m2):

| **Risco muito aumentado (risco relativo muito superior a 3)** | **Risco moderadamente aumentado(risco relativo 2-3)** | **Risco ligeiramente aumentado (risco relativo 1-2)** |
|---|---|---|
| Diabetes mellitus tipo 2 | Doença cardíaca coronária | Cancro (mama na pós-menopausa, endométrio e cólon) |
| Litíase da vesícula biliar | Hipertensão arterial | Alterações hormonas da reprodução |
| Dislipidemia | Osteoartrite (joelhos) | Síndrome do ovário poliquístico |
| Resistência à insulina | Hiperuricemia/gota | Infertilidade |
| Insuficiência respiratória |  | Lombalgias |
| Apneia obstrutiva do sono |  | Maior risco de complicações anestésicas |
|  |  | Defeitos fetais associados a obesidade materna |

(fonte: OMS)

### 1. Diabetes mellitus tipo 2 (DMT2)

O risco de um indivíduo obeso desenvolver DMT2 é cerca de 40 vezes maior quando comparado com um indivíduo com peso normal. O risco de DMT2 aumenta continuamente com o aumento do IMC.

Alguns estudos prospetivos demonstram que cerca de 64% dos casos de DMT2 no sexo masculino e 74% no sexo feminino seriam prevenidos se nenhum dos indivíduos estudados tivesse um IMC superior a 25 kg/m2.

Algumas características dos doentes obesos aumentam adicionalmente o risco de DMT2: obesidade na infância ou adolescência, aumento progressivo de peso a partir dos 18 anos e distribuição abdominal da gordura (obesidade abdominal). Vários estudos apontam a obesidade abdominal como um fator de risco independente de per si, mais importante até do que a quantidade total de gordura (IMC) no organismo.

### 2. Litíase da vesícula biliar

A litíase da vesicular biliar tem uma incidência 3 a 4 vezes mais elevada em indivíduos obesos. O risco aumenta com o IMC e é ainda maior na obesidade abdominal. Contudo, o risco está aumentado mesmo em casos moderados de excesso de peso.

A causa parece ser a sobressaturação de bílis com colesterol e a reduzida mobilidade da vesícula biliar, ambas presentes na obesidade.

### 3. Dislipidemia

Na obesidade observa-se, frequentemente, uma elevação dos triglicéridos, redução do colesterol HDL (colesterol "bom" ou "protetor") e elevação do colesterol LDL-apoB (colesterol "mau").

Este perfil lipidémico é mais frequente em caso de distribuição abdominal da gordura (obesidade abdominal) e está relacionado com risco aumentado de doença cardíaca coronária.

### 4. Problemas endócrinos (hormonais)

Os adipócitos (células de gordura) são mais do que simples depósitos de gordura. Eles também funcionam como células endócrinas, produzindo várias hormonas e são destinatários da atuação de muitas hormonas produzidas noutras partes do corpo. Estas propriedades são mais vincadas nos adipócitos dos depósitos abdominais de gordura.

As anomalias endócrinas/hormonais comummente associadas à obesidade, sobretudo nos casos de obesidade abdominal, são as seguintes:

- resistência à insulina e hiperinsulinémia
- redução dos níveis de progesterona na mulher
- redução dos níveis de testosterona no homem
- aumento da produção de cortisol
- redução dos níveis de hormona de crescimento

**Resistência à insulina / Síndrome metabólica**

A resistência à insulina está claramente associada à obesidade: constitui o principal mecanismo de desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 no obeso, aumenta o risco de doença cardiovascular e parece ser a causa primária da síndrome metabólica. É mais pronunciada nos casos de distribuição abdominal da gordura (obesidade abdominal) e observa-se em todos os indivíduos com obesidade mórbida (IMC ≥ 40 kg/m2).

A síndrome metabólica pretende organizar e designar um conjunto de fatores de risco para doença cardiovascular que comummente estão associados à obesidade. Não existe um consenso internacional para a sua definição - na definição proposta pela OMS, a síndrome metabólica caracteriza-se pela presença de duas ou mais das condições seguintes:

- intolerância à glicose ou diabetes mellitus tipo 2
- hipertensão arterial
- hipertrigliceridémia e baixo colesterol HDL
- resistência à insulina
- obesidade abdominal

Cada componente individual da síndrome metabólica aumenta o risco de doença cardiovascular, mas, em combinação, elas interagem sinergicamente, com aumento adicional do risco.

**Hormonas envolvidas na função de reprodução**

Há uma associação clara entre obesidade, particularmente obesidade abdominal, e disfunção ovulatória, hiperandroginismo e cancro sensível a hormonas (por exemplo: mama).

A obesidade associa-se frequentemente à síndrome do ovário poliquístico, a causa mais frequente de alteração da fertilidade. A perda de peso melhora quase sempre as perturbações hormonais e a função menstrual em mulheres obesas com síndrome do ovário poliquístico.

### 5. Insuficiência respiratória

A obesidade dificulta a respiração e pode causar insuficiência respiratória, com deficiente oxigenação do sangue (hipoxemia). A causa é mecânica: o esforço necessário para respirar está muito aumentado na obesidade em virtude do maior peso e rigidez e menor elasticidade da caixa torácica.

### 6. Apneia obstrutiva do sono

A apneia obstrutiva do sono ocorre em cerca de 80% doentes com obesidade mórbida (IMC ≥ 40 kg/m2), ainda que, frequentemente, não esteja diagnosticada; e em mais de 10% dos indivíduos com IMC ≥ 30 kg/m2. Por outro lado, 65-75% dos indivíduos com apneia obstrutiva do sono são obesos.

Trata-se de uma doença importante, na qual a repetida e permanente interrupção noturna do sono causa:

- sonolência moderada a grave durante o dia
- aumento dos níveis de dióxido de carbono no sangue
- dores de cabeça matinais
- hipertensão pulmonar
- pode resultar em insuficiência cardíaca

### 7. Doença cardíaca coronária

Além de se associar a um conjunto de fatores de risco para doença cardiovascular, como sejam a hipertensão arterial, elevação dos níveis de colesterol e diabetes mellitus tipo2, a obesidade é de per si um fator de risco independente para doença cardíaca coronária.

O peso corporal é o terceiro mais importante fator de predição de doença cardíaca coronária, a seguir à idade e dislipidemia,

O risco de doença cardíaca coronária associado à obesidade é maior entre os jovens obesos e em caso de obesidade abdominal.

Também está demonstrado que o risco de mortalidade por doença cardíaca coronária é maior nos doentes com excesso de peso, mesmo para um excesso de peso de apenas 10% acima do peso normal.

### 8. Hipertensão arterial (HTA)

A prevalência de HTA em indivíduos com excesso de peso é 3 vezes mais elevada do que em indivíduos com peso normal. O risco é cerca de 6 vezes mais elevado em indivíduos mais jovens (entre 20 e 44 anos) e aumenta com a duração da obesidade.

### 9. Acidente vascular cerebral (AVC)

O risco de AVC está aumentado nos doentes obesos e depende mais da duração da obesidade do que do peso num determinado momento.

### 10. Problemas osteoarticulares

Os doentes obesos sofrem frequentemente de dores articulares e artroses moderadas a graves, particularmente nas articulações que sofrem mais carga, nomeadamente, joelhos e coluna lombar. A causa mais importante é o stress mecânico relacionado com o excesso de carga a que tais articulações estão sujeitas no doente obeso.

O risco de gota também está aumentado - a causa é a elevação dos níveis de ácido úrico no sangue, frequentes no doente obeso.

Os problemas osteoarticulares são tendencialmente muito incapacitantes e constituem uma das causas mais frequentes de incapacidade laboral nos doentes obesos. São também uma das causas que mais frequentemente levam o doente obeso a recorrer ao médico e constituem uma importante fonte de despesa de saúde para o doente e para a sociedade. Em grande parte dos casos, o sucesso dos tratamentos ortopédicos propostos depende de uma prévia perda de peso consistente e sustentada.

### 11. Cancro

Múltiplos estudos demonstram um aumento da incidência de cancro em doentes com excesso de peso ou obesidade, particularmente de cancros sensíveis a hormonas e de cancro do aparelho gastrintestinal.

O aumento da incidência de cancros sensíveis a hormonas parece estar relacionado com uma distribuição abdominal da gordura (obesidade abdominal).

A tabela seguinte lista os tipos de cancro mais frequentemente associados à obesidade:

| **Cancros sensíveis a hormonas** | **Cancros do aparelho gastrintestinal e urinário** |
|---|---|
| Cancro do endométrio | Cancro do cólon e reto |
| Cancro do ovário | Cancro da vesícula biliar |
| Cancro da mama | Cancro do pâncreas |
| Cancro do colo do útero | Cancro do fígado |
| Cancro da próstata | Cancro do rim |

(fonte: OMS)

### 12. Problemas psicológicos

Uma grande proporção de doentes com excesso de peso ou obesidade apresentam problemas psicológicos moderados a graves, frequentemente incapacitantes e causa de incapacidade laboral. Segundo a OMS, os custos sociais e económicos associados a esta realidade estão muito subestimados.

A obesidade é altamente estigmatizada, quer do ponto de vista da imagem corporal (as pessoas obesas tendem a ver-se a si mesmas como mais feias), quer do ponto de vista das fraquezas e defeitos de carácter que é suposto a obesidade indicar (que não indica!).

Os estereótipos e atitudes negativas dos profissionais de saúde (incluindo médicos, nutricionistas e enfermeiros) face à obesidade são particularmente importantes, apesar de não revelarem senão ignorância!

A consciência que os doentes obesos têm desta atitude negativa gera uma relutância natural em procurar assistência médica, que só contribui para agravar o problema. Com efeito, este estigma explica parcialmente porque é que a obesidade é uma doença sub-diagnosticada e sub-tratada, apesar da sua alta prevalência.

Os mecanismos pelos quais o doente obeso evolui para uma perturbação da sua saúde psíquica são diferentes daqueles que levam à doença física. Os problemas psicológicos associados à obesidade não são uma consequência inevitável da obesidade, mas sim de valores socioculturais pelos quais as pessoas percecionam o seu corpo como "doentio" ou "feio".



 

 



 

Publicado a 17/03/2018

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